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Partidos em declínio

- Atualizado: 05 Março 2016 | 16h 45

Se as coisas andam estranhas na política dos EUA, isso se deve, em parte, ao desarranjo de republicanos e democratas

Os partidos políticos nunca são monolíticos. Como seus integrantes estão cansados de saber, reinam em seu interior as rivalidades e a fragmentação. Apesar disso, especialmente em democracias bipartidárias, eles resistem. Suportam as pressões centrífugas atendendo às reivindicações de seus eleitores, dividindo os frutos do butim entre as facções internas e adaptando-se a mudanças externas. Conseguem mesmo, no mais das vezes, parecer relativamente coesos ao fazer isso. Durante a maior parte do século 20, a maioria dos americanos sabia mais ou menos quais eram as bandeiras de seus dois partidos.

O momento atual, porém, é de anormalidade. Embora os cientistas políticos tenham demorado um pouco para se dar conta do fenômeno, o fato é que os partidos políticos americanos parecem mais fragmentados que de costume. A situação dos republicanos é particularmente delicada. Mas as divisões internas dos democratas, ainda que menos evidentes, também são profundas.

Eleitores fazem fila para votar em uma universidade em Austin, no Texas, um dos 13 Estados que realizam a Superterça neste dia 1º 

Eleitores fazem fila para votar em uma universidade em Austin, no Texas, um dos 13 Estados que realizam a Superterça neste dia 1º 

A pré-candidatura de Donald Trump avança a passos largos, apesar de lhe faltarem todos os recursos que os partidos costumam oferecer ao favorito à indicação para a disputa da presidência: mais até do que estrategistas, propostas e recursos financeiros. Não chega a ser surpreendente que os republicanos tenham sido incapazes de prever o sucesso de Trump. Mais espantoso, e bem mais recriminável, é que eles tenham se mostrado tão ineptos em lidar com o fosso que se abriu entre as bases sociais e o ideário do partido – descompasso esse que Trump soube explorar com maestria. Agora, o partido lembra um jornal que acaba de descobrir que seus leitores não precisam mais dos artigos e reportagens publicados em suas páginas para fazer a mediação entre si e o mundo.

O Partido Republicano chegou ao século 21 como uma aliança entre grupos pró-mercado, conservadores de inspiração religiosa e defensores de políticas externas agressivas. O partido conquistou apoio desproporcional entre eleitores brancos – resultante do bem-sucedido recrutamento de brancos sulistas, que se ressentiam das inovações da era dos direitos civis, e, no governo Reagan, de trabalhadores do setor industrial em todo o país. 

Essa mescla de grupos de interesse mostrou-se bastante produtiva: no intervalo de 40 anos que se estende de 1969 a 2008, a Casa Branca esteve nas mãos do partido durante 28 anos. No período, os grupos pró-mercado foram os sócios majoritários do arranjo, principalmente porque era de seus bolsos que saíam os recursos para financiar as campanhas eleitorais republicanas.

É a primeira vez em 50 anos que as coisas seguem um curso diferente. Os irmãos Koch, responsáveis pela organização da rede mais abastada de doadores políticos do país, cujo objetivo é eleger parlamentares republicanos comprometidos com a desregulamentação do mercado e a redução da carga tributária, recusam-se a apoiar Trump.

Fraturas expostas. O avanço do magnata não pode ser atribuído apenas a seu patrimônio – embora isso certamente tenha ajudado, permitindo que ele apelasse diretamente às preocupações das bases republicanas, em vez de atender às aspirações de seus doadores. Trump expôs graves divisões no interior das diferentes tendências do partido, assim como entre umas e outras. 

Mesmo antes de sua ascensão, alguns republicanos pró-mercado começavam a se desiludir com o partido, cujo braço congressista parecia preocupado apenas em paralisar o governo federal, brincando perigosamente com o teto da dívida pública. 

Depois da crise financeira, quando o governo de George W. Bush socorreu várias instituições financeiras de grande porte, os republicanos passaram a denunciar o capitalismo de compadrio tanto quanto os democratas. Trump aprofundou as divergências com os grupos mais ligados ao empresariado. Em dezembro, o presidente da Câmara Nacional de Comércio disse ver a candidatura Trump como mera fonte de entretenimento.

O bilionário também provocou divisões entre os conservadores de orientação religiosa. A vida repleta de episódios tórridos e o ar de velho devasso não seriam, por si só, obstáculos ao apoio dos evangélicos que, afinal de contas, adoram histórias de penitência. Mas Trump não é um sujeito muito religioso e não faz força para dar a impressão de sê-lo – seu posicionamento contra o aborto parece insincero. 

O Christian Post, site de notícias mais popular entre os evangélicos americanos, recentemente publicou um editorial com o título: “Donald Trump é uma fraude. Manter-se longe dele é o melhor que um eleitor evangélico pode fazer”. Até o momento, organizações conservadoras de grande alcance social, como a Family Leader, têm preferido apoiar o senador texano Ted Cruz. Mas as admoestações não parecem surtir efeito. Na maioria dos Estados, Trump vem obtendo vitórias fáceis entre eleitores que se declaram evangélicos.

Os motivos que levam essas pessoas a votar em Trump têm muito pouco a ver com crenças religiosas ou com propostas específicas. É antes uma questão de atitude. Estudo conduzido pelo centro de pesquisas Rand Corporation mostra que o indicador mais confiável para determinar se um eleitor republicano tende a apoiar o magnata é sua concordância com a afirmação: “Pessoas como eu não influenciam as ações do governo”. Os eleitores de Trump sentem que não têm voz, e, sejam quais forem os atributos que faltam ao pré-candidato, pelo menos voz ele tem. 

Trump empresta sua voz para que as pessoas deem vazão a suas queixas e a suas aspirações de grandeza. E elas adoram a experiência. É também uma voz capaz de fazer afirmações que outros políticos não fazem, como a de que os imigrantes mexicanos são, em sua maioria, traficantes e estupradores. Tais inverdades se encaixam no racismo mais amplo, ainda que em grande medida tácito, com o qual Trump granjeou popularidade não só junto à Ku Klux Klan, mas também junto ao número consideravelmente maior de indivíduos brancos que cultivam algum tipo de ressentimento racial. Em termos geográficos, observa-se correlação entre sua base de apoio e a frequência de xingamentos racistas em pesquisas feitas no Google.

Fissuras. Quanto aos linhas-duras da política externa, o mais frágil dos três grupos que compõem o Partido Republicano, é possível que eles prefiram até mesmo uma Casa Branca comandada por Hillary Clinton do que por Donald Trump. As declarações do magnata, que volta e meia diz que as tropas americanas só colhem derrotas, sua tendência ao isolacionismo, os insultos que já dirigiu a veteranos importantes, como John McCain, as críticas que faz ao desempenho de George W. Bush como comandante em chefe e, acima de tudo, o entusiasmo com que fala de soldados executando ações que resultariam em sua denúncia à Justiça militar são a receita certa para empurrar esses republicanos para o lado dos democratas.

Mais uma vez, porém, o apelo de Trump reflete aquilo que ao menos alguns republicanos gostam na política externa linha-dura: sua associação com a ideia de autoridade. O Partido Republicano passou os últimos 50 anos opondo-se ao protagonismo do governo federal em todas as áreas, menos na política externa. Agora, corre o risco de ir para a campanha presidencial com um cabeça de chapa que, segundo indicam levantamentos, conta com apoio particularmente entusiasmado de indivíduos que gostariam de ver um político mais autoritário na Casa Branca.

Trump revela pendor inigualável para acentuar as divisões republicanas. Mas nisso ele é auxiliado por uma relutância inveterada em enfrentar e encontrar soluções para tais divergências. Há anos, em vez de se dedicar à questão, os republicanos preferem se opor ferrenhamente às políticas de Obama e questionar sua legitimidade. Agora, com Obama de saída, isso já não faz sentido.

Por outro lado, Trump ajudou os democratas a identificar os pontos em que devem somar forças. Se os republicanos desejam dar fim às conquistas associadas com Obama, os democratas querem protegê-las e reforçá-las. Isso tende a favorecer a formação de consensos no interior da coalizão interna. Mas os laços entre os grupos de eleitores que votam majoritariamente em candidatos democratas – hispânicos, negros, indivíduos com pós-graduação, mulheres solteiras, pessoas sem religião, trabalhadores sindicalizados e jovens que chegaram à vida adulta na virada do milênio – estão sujeitos a mudanças. 

As prévias também deixam claro que, entre os ativistas, é forte o desejo de levar o partido mais para a esquerda. Os democratas têm desempenho excepcional junto ao eleitorado não branco: em 2012, um em cada quatro votos que Obama recebeu veio desses eleitores – no caso de Mitt Romney, foi um em cada dez. Acontece que os interesses dos indivíduos negros nem sempre coincidem com os dos hispânicos. Temendo a disputa por empregos de baixa remuneração, a bancada negra no Congresso se aliou com os sindicatos e foi parcialmente responsável pelo insucesso de uma tentativa de reformar a lei de imigração, ainda no governo de George W. Bush. O partido conseguiu contornar a cisão, apresentando a reforma como uma questão de direitos civis. Quando Obama se reúne com membros da bancada negra, é comum que, numa demonstração mútua de bons modos, a reforma da legislação de imigração seja omitida. Mas a divisão persiste.

As primárias deste ano também deixaram claro que os democratas estão divididos em clivagens geracionais. Em todas as disputas, Bernie Sanders venceu Hillary por larga diferença entre eleitores cujas experiências políticas formativas foram a guerra do Iraque (que ela apoiou) e a crise financeira (cuja responsabilidade é atribuída aos amigos que ela tem em Wall Street). Em contrapartida, para os eleitores que nasceram antes dos anos Reagan, o fato de Sanders ter passado sua lua de mel na União Soviética é uma falta imperdoável. Para os democratas mais velhos, o deslocamento para o centro que o partido fez nos anos 90 foi uma medida pragmática, correta e produtiva; para os mais jovens, foi uma traição.

Quando seus integrantes se dão ao trabalho de comparecer às urnas, a coalizão democrata ainda é poderosa. Os não brancos constituem parcela cada vez maior do eleitorado. Levantamentos do Gallup mostram que, nos últimos 20 anos, aumentou o número de americanos que se dizem progressistas, ao passo que o número dos que se dizem conservadores se manteve estável. Os que se identificam como moderados tendem a votar em candidatos democratas. Mas, com frequência – sobretudo em anos em que as eleições se restringem a cargos legislativos – os democratas preferem ficar em casa.

Isso impediu a renovação do partido. Na eventualidade de que Hillary, aos 68 anos, conquiste a indicação democrata e então venha a ser atropelada por um ônibus ou por um indiciamento criminal, os nomes que costumam ser mencionados como seus possíveis substitutos são John Kerry, de 72 anos, e Joe Biden, de 73 anos. 

Durante o governo Obama, os democratas perderam 900 cadeiras em Legislativos estaduais, 11 governadores, 69 cadeiras na Câmara dos Deputados e 13 no Senado. Isso ajuda a explicar por que Hillary não teve de enfrentar um pretendente mais jovem, que encarnasse a oposição a ela no interior do partido. 

Promessa. Nas duas corridas presidenciais que disputou, Obama fez uso de um aparato próprio, que não se confundia com a estrutura partidária. Hillary assumiu o compromisso de reconstruir o partido se vencer a eleição. Mas isso pressupõe que os grupos de interesse que atuam em seu interior continuem a ver no Partido Democrata o instrumento mais adequado para alcançar seus objetivos. 

Encerrada a eleição presidencial, pode ser que a apatia volte a lhes parecer mais atraente – ainda mais considerando que, agora que o partido conseguiu fazer a reforma do sistema de saúde e enfrentar – em certa medida – o problema das mudanças climáticas, seus integrantes têm enfrentado enorme dificuldade para designar novos mundos a serem conquistados.

Não há nada de imutável no atual alinhamento partidário americano. No passado, os republicanos empunharam bandeiras progressistas e defenderam a ampliação da esfera de atuação do Estado; organizaram a oposição à escravidão e lutaram pela reestruturação do Sul depois da guerra civil. Também já foram integrantes do partido que defende um Estado menor, não só agora, como nos anos 1930, quando se opuseram ao New Deal do presidente Franklin Roosevelt. 

Por sua vez, os democratas já foram o partido contrário ao excesso de intervenção estatal, opondo-se aos que queriam conceder mais poderes ao governo federal e defendendo os interesses dos brancos sulistas contra Washington. Agora, são conhecidos por querer um Estado mais atuante, tendo se empenhado na implementação de programas federais contra a pobreza no século 20 e propugnado o envolvimento do Estado no sistema de saúde no século 21.

Realinhamento. As eleições de 2016 podem marcar um novo realinhamento partidário. Alguns republicanos se perguntam se uma candidatura Trump poderia redesenhar o mapa eleitoral, conquistando o apoio de trabalhadores brancos que normalmente não comparecem às urnas em Estados como Ohio, Pensilvânia, Michigan e Wisconsin, onde não se costuma observar nítida predominância nem de um partido, nem de outro. Se Trump perder, o partido pode chegar à conclusão de que precisa dar mais atenção às preocupações econômicas daqueles que sentem terem sido deixados para trás.

De sua parte, os democratas contam com Trump para energizar os membros da coalizão que em duas ocasiões elegeu Barack Obama, além de atrair republicanos moderados, sobretudo mulheres, que certamente serão bombardeadas com anúncios sobre a misoginia do bilionário. 

Se Hillary conseguir formar uma ampla coalizão anti-Trump, que atraia alguns eleitores que normalmente votam em candidatos republicanos e, ao mesmo tempo, alcançar um alto grau de comparecimento entre democratas mais tradicionais, ela terá a oportunidade de criar uma nova coalizão centrista, capaz de durar mais tempo que seu próprio governo.

Não há como saber ainda se o que está acontecendo em 2016 é uma anomalia pontual, causada pela “persona” política de Trump, ou se nessas primárias estão se desenhando os contornos do futuro. Qualquer que seja a configuração dos partidos depois da eleição de 8 de novembro, o sucesso que Trump obteve até agora já mudou o sistema, em parte ao mostrar que os eleitores dão muito menos valor à consistência ideológica – e ao comedimento retórico – do que a classe política supunha. Isso pode ter um efeito libertador, se permitir que os representantes eleitos se prendam menos aos posicionamentos partidários. Mas também pode ter consequências deletérias se os únicos posicionamentos dos quais eles resolverem se aproximar forem os brutalmente populistas.

Os partidos políticos existem para processar conjuntos complexos de questões e transformá-los em escolhas binárias. É impossível imaginar uma grande democracia que se mantenha saudável sem contar com eles. No entanto, em 2020, lembrando-se da campanha de Trump, os candidatos mais fortes talvez partam do princípio de que, no fim das contas, não precisam tanto assim de seus partidos. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER 

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