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Fernando Vergara/AP
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Adriana Carranca

08 Outubro 2016 | 05h00

O comitê do Nobel da Paz decidiu dar o prêmio deste ano para o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, “por seus esforços resolutos em acabar com a guerra civil que já dura mais de 50 anos”. A guerra contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) é a mais longa das Américas, matou ao menos 220 mil colombianos e obrigou 6 milhões a deixar suas casas. 

Ocorre que o acordo de paz entre o governo e a guerrilha, anunciado no dia 24, foi rejeitado posteriormente pela maioria dos colombianos em um plebiscito, uma derrota para o presidente.

Não é a primeira vez que o comitê norueguês reconhece esforços pela paz no lugar de conquistas concretas. Foi assim com Barack Obama em 2009. Em seu primeiro ano na Casa Branca, ele prometia acabar com as guerras no Iraque e no Afeganistão. Os últimos soldados deixaram os postos iraquianos um ano depois, em agosto de 2010. Em maio de 2011, depois da morte de Osama bin Laden em uma operação americana, o presidente anunciou a retirada das terras afegãs. Mas nenhuma das duas guerras realmente chegou ao fim. 

O governo Obama expandiu o programa de drones (aviões não tripulados), como mostraram documentos que foram vazados ao site The Intercept. É possível que o presidente acreditasse que a estratégia de matar terroristas, no lugar de capturá-los, fosse mais eficaz, mas causou a morte de centenas de civis inocentes e abasteceu o radicalismo. O terrorismo está tão ou mais forte no Afeganistão, no Paquistão, no Iraque, na Líbia... É provável que o programa tenha trazido mais benefícios políticos ao presidente, por manter os soldados americanos em casa, do que para a paz. 

Em 2014, o comitê premiou ao mesmo tempo o indiano Kailash Satyarthi e a paquistanesa Malala Yousafzai “por seus esforços contra a supressão de crianças e jovens e pelo direito de todas as crianças à educação”, mas também numa clara mensagem aos governos de Índia e Paquistão, em desavença desde a independência do último. Em 2012, a União Europeia ganhou o prêmio “por mais de seis décadas de contribuição ao avanço da paz e reconciliação, democracia e direitos humanos na Europa”. As políticas para refugiados e a ascensão da direita xenófoba ao governo em vários países do bloco, hoje, contam uma história diferente. 

O Prêmio Nobel não é nada além do reconhecimento de esforços feitos em direção à paz. Uma espécie de chancela. Em 1994, foi concedido a Shimon Peres, Yitzhak Rabin e Yasser Arafat, “por seus esforços em criar a paz no Oriente Médio”. Embora tenham chegado mais perto de um acordo efetivo do que jamais antes, os objetivos não se concretizaram. 

O acordo na Colômbia é também o mais perto do que se conseguiu chegar da paz em 52 anos. O prêmio internacional foi uma vitória para Santos e uma derrota para seu antecessor, o ex-presidente Álvaro Uribe, que liderou a campanha pelo “não” ao acordo do governo com as Farc no plebiscito de domingo. Mas a conquista efetiva da paz, como mostra a História, requer mais do que isso.

“Fazer a paz é muito mais difícil do que a guerra, porque você precisa mudar os sentimentos das pessoas, pessoas que sofreram, e tentar persuadi-las a perdoar”, disse Santos um mês antes do plebiscito. Santos tem razão. Revanche e paz raramente se conciliam. Após conflitos, sequestros, massacres, estupros, quanto os colombianos serão capazes de perdoar? 

Em um país que enfrenta um trauma coletivo, foi isso o que o plebiscito mediu. Os que votaram “não” ao acordo o fizeram por entender que seus termos não fazem justiça aos guerrilheiros. 

“Em meu caso, o que seria justiça? Nada”, disse Ingrid Betancourt, que foi candidata à presidência e ficou por seis anos sequestrada pelos guerrilheiros e foi libertada em julho de 2008. Ela, no entanto, disse em entrevista à Deutsche Welle perdoar os sequestradores. 

“A pergunta certa a ser feita é: por que estamos fazendo isso? Eu acho que estamos fazendo isso (o acordo de paz) para que nenhum outro colombiano sofra no futuro o que sofremos.” 

Para Luis Gallo, artista colombiano cujo pai foi morto pelos guerrilheiros, o pedido de perdão do líder das Farc, Londoño, representou o fim de um ciclo. “Eu honrei a vida de meu pai perdoando os rebeldes e aderindo a um novo capítulo da nossa História”, escreveu. “Mas eu me dei conta de que nem todos estão prontos para perdoar.”

 

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