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Paz quente

O primeiro-ministro russo, Dimitri Medvedev, deu margem a controvérsias no mês passado ao declarar que o mundo estava entrando em “uma nova Guerra Fria”. Ele está errado. Não estamos numa Guerra Fria, mas numa fase de paz quente. À medida que entramos numa nova era de fragmentação global, é importante entender a diferença.

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IAN BREMMER*

06 Março 2016 | 05h00

Em primeiro lugar, é difícil manter uma Guerra Fria com o Ocidente quando ele próprio vem se rompendo. As relações entre Estados Unidos e Europa estão no seu pior nível em mais de 70 anos. A Europa está atormentada pelo temor de a Grã-Bretanha deixar a União Europeia, de a Grécia recair na crise financeira e de o espaço Schengen de livre circulação de pessoas e mercadorias desmoronar sob o peso da crise dos refugiados. 

Uma guerra fria com a Rússia é a última coisa de que o continente necessita. Na verdade, muitos líderes europeus estão aferrados à esperança de a intervenção russa na Síria ajudar a conter o fluxo de refugiados. Os europeus estão muito mais propensos do que os americanos a permitir um fim das sanções contra Moscou. Guerras frias precisam de lados claros. A preocupação de Medvedev com o Ocidente não se justifica.

A Rússia também não tem a rede de aliados que a União Soviética possuía. Moscou gostaria de manter vínculos estratégicos mais estreitos com a China, mas Pequim não tem interesse. A China administrará cautelosamente os riscos envolvendo a Europa e o Oriente Médio para se concentrar em investimentos estratégicos em Ásia, África e América Latina. Além de suas ambições, a China também tem de gerir seus problemas, como a desaceleração da sua economia. O país quer fazer negócios com o mundo e necessita de um cenário global mais estável, não menos. Por isso, os chineses estão mais propensos a se irritar com a facilidade com que a Rússia provoca desnecessariamente o Ocidente do que aderir a uma parceria que seria uma espécie de aliança antiocidental.

Fragilidade. A Rússia não é hoje o que era há 10 anos, tampouco o que era quando a Guerra Fria estava no seu auge. A Rússia necessita que os preços do petróleo retornem aos US$ 100 por barril para equilibrar seu orçamento. Isso não deve ocorrer em pouco tempo, com consequências nefastas para as finanças públicas russas. E diga o que quiser sobre o comunismo, mas pelo menos foi uma ideologia que atraiu fervorosos seguidores. O culto da personalidade de Vladimir Putin, embora muito útil para consolidar seu poder na Rússia, não basta para reunir as massas globais contra os adversários de Moscou.

Mesmo que o objetivo da Rússia seja um conflito, os Estados Unidos não têm o mínimo interesse. Uma economia global atribulada, a propagação do Estado Islâmico e uma China em ascensão são preocupações mais prioritárias para os americanos. Mas o problema vai além. O avanço de candidatos como Donald Trump e Bernie Sanders revelou as profundas divisões no eleitorado americano. Os Estados Unidos estão lutando para se definir – para que uma guerra fria seja legítima, o país tem de defender algo concreto. No momento, não é o caso.

Para sua informação, em 2014, Medvedev também proclamou que o mundo estava se dirigindo para uma nova Guerra Fria. Mas confiscar grandes áreas da Ucrânia não levou o presidente americano a revolver seu arsenal nuclear e tampouco a Síria o levará a isso. Mas, se não existe uma guerra, também não se trata exatamente de paz. Todas as maiores potencias mundiais mantêm relações dignas entre si, pelo menos na aparência. Ao privilegiarem suas próprias prioridades, no entanto, essas potências avivam as tensões entre si, mesmo que nenhuma delas se mostre disposta a deixar que as tensões se transformem num conflito direto. 

A derrubada de um bombardeiro russo pela Turquia, embora polêmica, não causou um conflito maior. E não se trata somente da Síria, mas o contínuo avanço do Estado Islâmico, a crise dos refugiados que piora a cada dia, e os Estados falidos no Oriente Médio, tudo aponta para o fato de que as grandes potências não estão dispostas a fazer o necessário esforço para manter a estabilidade global. Quanto mais se recusarem a tratar seriamente a questão da segurança, o mais provável é que os conflitos regionais continuem a se disseminar.

Portanto, vamos aceitar a declaração de Medvedev com uma boa dose de ceticismo. Se sua visão do mundo é a partir das janelas do Kremlin, você terá boas razões para falar de uma nova era de conflito global. Certamente, isso torna a intervenção feroz na Síria mais palatável. Mas não estamos em 1962, por mais que Moscou o deseje.

* É PRESIDENTE DO EURASIA GROUP E PROFESSOR DE PESQUISA GLOBAL NA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK 

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