REUTERS/Denis Balibouse
REUTERS/Denis Balibouse

‘Pela primeira vez, há sinais de que a paz é possível na Síria’

Segundo religioso, EUA e Rússia precisam chegar a um acordo para realmente alcançar o fim da guerra no país

Jamil Chade - Correspondente / Genebra , O Estado de S. Paulo

14 Abril 2016 | 05h00

A Síria perdeu um milhão de cristãos em cinco anos em razão da guerra – mortos ou obrigados a deixar o país. O grupo viu suas igrejas destruídas, padres sequestrados e, para continuar a celebrar missas, bispos são obrigados a contar com proteção militar. Quem faz a avaliação é Antoine Audo, bispo de Alepo, uma das cidades que mais sofreram com o conflito e um dos pilares históricos do cristianismo no Oriente Médio.

Audo é uma das vozes a Igreja Católica mais influentes no Oriente Médio. Presidente da Caritas na Síria, entrou para a Companhia de Jesus em 1969. Em 1992, o papa João Paulo II o nomeou bispo de Alepo. Em entrevista ao Estado, o religioso disse acreditar que restaram apenas 500 mil cristãos no país. Mas, segundo ele, pela primeira vez há sinais de que a paz pode ser possível.  A seguir, trechos da entrevista:

Como vivem os cristãos hoje em Alepo?

Temos uma vida paradoxal. Em Alepo, vivemos na área protegida pelos militares do governo, no oeste da cidade. Mas temos problemas de falta de água, não há emprego, não temos combustível. Tivemos um inverno horrível. Mas continuamos e fazemos tudo que podemos para continuar. Organizamos orações, grupos de escoteiros, teatro. Tentamos sempre estar juntos e lutar. Mesmo se sofremos, estamos convencidos de nosso amor pela Síria. Tentamos manter certo ritmo. Existem escolas, os alunos têm provas. E, ao mesmo tempo, temos bombas, vítimas. Essa é a nossa vida cotidiana há cinco anos.

Quantos cristãos ainda vivem na Síria?

Existia 1,5 milhão de cristãos antes da guerra. Hoje, somos 500 mil. A insegurança pesou muito. Mas também o desemprego. Os ricos partiram, a classe média empobreceu e os pobres são hoje miseráveis. Temos três catedrais católicas. Todas foram quase totalmente destruídas. Elas simbolizavam o convívio das várias religiões na Síria. Na minha juventude, estudei Islamologia na Universidade de Damasco. Tenho grandes amigos muçulmanos. Os cristãos foram usados para criar medo na sociedade, para desestabilizar a Síria. Tentaram destruir essa convivência e transformar o conflito em uma guerra confessional. Mas os muçulmanos esclarecidos não deixarão isso ocorrer. 

Qual sua avaliação sobre Bashar Assad, acusado de crimes de guerra pela ONU?

É uma pergunta delicada. Não é porque ele é alauita que é o diabo. Há uma propaganda do Ocidente contra ele, de que mata mulheres, bebês. Não podemos imaginar que um doutor que estudou em Londres, que é casado com uma pessoa respeitável, seja descrito como um diabo. É pura propaganda.

Mas informes da Comissão de Inquérito da ONU apontam com detalhes que o governo é o responsável pelas mortes. Existem coisas que precisam ser entendidas num contexto de guerra. Ele não é um anjo. Não é diferente dos outros líderes do Oriente Médio. Por isso digo que não é justo tratá-lo assim. Ele foi sempre respeitoso e, mesmo em entrevistas, fala sem agressividade. Ele merece nosso respeito. 

O processo de paz, caso chegue a um acordo, prevê eleições em 18 meses. O sr. acredita que Assad teria votos?

A maioria dos cristãos, 80%, vai votar em Assad. Não queremos o que ocorreu no Iraque. No geral, acredito que 50% da população vota em Assad. 

Mas entidades de direitos humanos e mesmo uma parte substancial da população síria foi às ruas protestar em março de 2011 contra Assad. E a resposta foi a repressão. Essa guerra não é incentivada por Assad. Todos essas situações precisam ser vistas num contexto de conflito. Essa guerra não é de dentro, lutando por liberdade e democracia. Claro, há algum desejo por isso. Mas, essencialmente, ela foi organizada de fora para destruir a Síria.

O sr. acredita que, depois de tantos fracassos, a atual negociação de paz pode trazer resultados, mesmo com o controle de partes do território pelo Estado Islâmico?

É muito bom ver o diálogo. Mas devem deixar os sírios encontrarem a solução. Não tentem impor isso, pois não vão aceitar. Mas, sim, hoje a paz é possível. Muitos me dizem que sou ingênuo. Mas os que dizem isso são os que ganham com a guerra. A história da Síria não é uma realidade de intolerância, como o Estado Islâmico tenta implementar. 

Qual o papel que EUA e Rússia podem ter para um acordo de paz?

Podem definir o futuro do conflito e acabar com a guerra. Se houver um acordo entre russos e americanos, a guerra vai acabar. Mas esse entendimento precisa ser sincero. 

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