EFE/LIU XIA
EFE/LIU XIA

Perfil: Liu Xiaobo, intelectual condenado por convicções democráticas

Inimigo declarado do regime comunista, dissidente foi colocado em liberdade condicional em maio, após ter sido diagnosticado com câncer em fase terminal

O Estado de S.Paulo

13 Julho 2017 | 12h06

PEQUIM - Liu Xiaobo, ganhador do prêmio Nobel da Paz de 2010 que morreu nesta quinta-feira, 13, em consequência de um câncer no fígado, é um célebre intelectual e veterano da dissidência da China, preso por suas convicções democráticas.

Integrante do movimento democrático da Praça de Tiananmen e inimigo declarado do regime comunista, o escritor de 61 anos foi colocado em liberdade condicional em maio, após ter sido diagnosticado com câncer em fase terminal depois de oito anos na prisão.

Foi em sua cela, onde cumpria pena por subversão, que Liu Xiaobo soube em 2010 que era o ganhador do prêmio Nobel da Paz. A premiação foi entregue de maneira simbólica, em sua ausência, no dia 10 de dezembro daquele ano em Oslo. O escritor foi representado na cerimônia por uma cadeira vazia.

Liu é o primeiro Nobel da Paz a morrer privado de liberdade desde o pacifista alemão Carl von Ossietzky, que morreu em 1938 em um hospital quando estava detido pelos nazistas.

Nas poucas fotografias tiradas durante momentos de liberdade - sempre vigiados -, ele já aparecia bastante magro, com óculos de armação metálica e cabelo curto.

História

Em 1989, ao regressar dos EUA, onde deu aulas na Universidade de Columbia, em Nova York, Liu - muito crítico aos valores tradicionais chineses sobre a obediência ao poder - participou do movimento democrático da Praça de Tiananmen, desencadeado por estudantes.

Frente ao endurecimento do regime, ele iniciou uma greve de fome na célebre esplanada de Pequim, na companhia do cantor Hou Dejian e de outros dois intelectuais, Zhou Duo e Gao Xin. "Preferimos ter 10 diabos que se controlam mutuamente do que um anjo que dispõe do poder absoluto", escreveram em uma declaração pública, na qual também criticam alguns estudantes que esqueceram os ideais democráticos de sua luta.

Na madrugada do dia 4 de junho, quando o Exército tentou dispersar os manifestantes que ocupavam a Praça, o grupo se ofereceu para fazer a mediação e obter uma retirada pacífica.

Detido depois da violenta repressão ao movimento, o opositor passou um ano e meio na prisão sem jamais ter sido condenado.

Teve problemas de novo com o regime e foi enviado para um campo de "reeducação pelo trabalho" entre 1996 e 1999, por ter se manifestado a favor de uma reforma política e da libertação das pessoas ainda presas por participação no movimento de junho de 1989.

Tornou-se integrante do Centro Independente Pen China, um grupo de escritores, e manteve contato íntimo com o mundo intelectual. Censurado na China, seus livros foram publicados em Hong Kong.

Em razão do 60.º aniversário da Declaração dos Direitos Humanos, Liu foi um dos autores da Carta 08, texto que pedia respeito aos direitos humanos e à liberdade de expressão e a convocação de eleições num "país livre, democrático e constitucional". O fato fez o dissidente ser condenado, no dia 25 de dezembro de 2009, a 11 anos de prisão por "subversão do poder do Estado".

Em uma de suas últimas entrevistas, Liu, casado e sem filhos, assegurou que mantinha a esperança. "Vamos avançar muito lentamente, mas não será fácil conter as demandas de liberdade tanto das pessoas comuns como dos membros do Partido (Comunista)", afirmou.

A Carta 08 se inspirava na Carta 77, manifesto assinado em 1977 por 240 intelectuais, incluindo Havel, pela democratização da Checoslováquia comunista.

A mulher de Liu Xiaobo, Liu Xia, artista que se tornou militante dos direitos humanos, foi colocada em prisão domiciliar um dia após o anúncio do Nobel da Paz, tornando-se outro símbolo da resistência.

Liu foi hospitalizado em Shenyang, na Província de Liaoning, onde nasceu e cumpria sua pena. O dissidente havia expressado seu desejo de ser transferido e tratado no exterior, pedido que foi negado pela China. / AFP

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