Arquivo/Reuters
Arquivo/Reuters

Perícias divergentes espantam promotora de caso Nisman

Viviana Fein diz 'nunca ter visto' tanta diferença em laudos sobre um mesmo caso; equipe particular foi contratada por ex-mulher

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

07 Março 2015 | 02h03

A investigadora Viviana Fein, encarregada de elucidar as circunstâncias em que morreu o promotor argentino Alberto Nisman, disse ontem nunca ter visto diferença tão grande de conclusões entre uma perícia oficial e uma independente. Na quinta-feira, um grupo de especialistas contratado pela família do promotor chegou à conclusão de que ele foi assassinado e descartou a hipótese de suicídio.

Os pareceres são tão divergentes - e por isso levaram a rumores de má-fé de parte dos funcionários do Estado - que Fein mudou a agenda de depoimentos da próxima semana para ouvir os dois grupos. "Preciso analisar o que há de correto numa perícia e na outra", afirmou ontem a promotora à rádio Continental, acenando com a possibilidade de chamar uma junta médica para dirimir as dúvidas.

Segundo a equipe liderada pelo médico forense Osvaldo Raffo, Nisman morreu pelo menos 12 horas antes do apontado pela perícia oficial - na noite de sábado, 17 de janeiro, e não na manhã de domingo. "Não pode haver uma diferença de 10 horas entre duas perícias. Este tipo de discordância é inédita. Cientificamente não tenho explicação para essa diferença tão grande", disse Ernesto Duronto, vice-presidente da Associação de Médicos Legistas da Argentina, que, como a maioria dos especialistas na área, foi aluno de Raffo, considerado uma referência.

Essa nova estimativa coloca a hora da morte mais perto do momento em que o técnico em informática Diego Lagomarsino, que trabalhava para Nisman, emprestou o revólver calibre 22 de onde saiu o disparo. O porta-voz do governo argentino, Aníbal Fernández, disse que a defesa de Lagomarsino "deveria estar preocupada" com a nova perícia, mas disse confiar nos funcionários do Estado. Lagomarsino apresentou tíquetes de pedágio e vídeos que confirmariam sua chegada em casa na noite de sábado.

A análise privada indica ainda que o cadáver foi movimentado, algo concluído a partir de manchas que se formam em razão do acúmulo de sangue na pele mais próxima do solo após a morte. A perícia oficial sustenta que o corpo bloqueava a passagem pela porta do banheiro, o que impediria a fuga de um assassino, e não fala de movimentação do cadáver.

Por último, o grupo contratado afirmou que Nisman agonizou. "Pela quantidade de sangue e pelo tamanho da perfuração, ele agonizou pelo menos 15 minutos", avaliou Duronto. A investigação oficial afirma que a morte foi imediata e fala de espasmos na mão direita - algo compatível apenas com um suicídio - o que os peritos privados rejeitam.

A ex-mulher de Nisman, Sandra Arroyo Salgado, que apresentou o resumo do relatório independente de cem páginas, omitiu o 12.º dos 13 itens que leu na quinta-feira, segundo o jornal Clarín. O ponto descreve a maneira pela qual o promotor teria sido assassinado.

O corpo de Nisman foi encontrado quatro dias depois de o promotor acusar a presidente Cristina Kirchner, o chanceler Héctor Timerman e outros dirigentes de proteger altos funcionários iranianos que, segundo a Justiça argentina, praticaram o atentado contra a Associação Mutual Israelita­Argentina (Amia), em 1994, que matou 85 pessoas.

Mais conteúdo sobre:
O Estado de S. Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.