Pesquisa mostra por que dinheiro não compra felicidade

Uma das partes mais freqüentemente repetidas da Declaração de Independência talvez seja também uma das menos influentes. As pessoas marcham em Washington protestando contra as agressões contra os dois direitos inalienáveis, vida e liberdade. O terceiro, entretanto, raramente merece menção além de uma simples recitação como sentença mais famosa da Declaração. Ao contrário, a busca da felicidade é deixada para o mercado livre. Os americanos são normalmente responsáveis por seu próprio bem estar emocional e, pelo menos segundo a teoria econômica, nunca houve tanto mistério sobre como conquistá-lo. Livros chamam isso de bem-estar "utilitário", e eles dizem que ele surge juntamente com a riqueza da pessoa. "Se há uma idéia mais fundamental em economia, eu não estou certo o que poderia ser", diz Andrew J. Oswald, professor desse tema na University of Warwick, na Inglaterra. Há um problema fundamental em relação à idéia. Na última metade do século, os Estados Unidos se tornaram um país muito mais rico, com pessoas comuns com capacidade de consumir - um segundo carro, uma passagem transcontinental, uma máquina que passa filmes em casa - tudo o que apenas os ricos podiam ter antes da Segunda Guerra Mundial. Na média, as pessoas hoje compram alimentos melhores, assistência médica melhor e, aparentemente, uma vida melhor. Ainda assim, o país como um todo considera-se infeliz. Na verdade, nos últimos 30 anos, os americanos tornaram-se de alguma forma menos satisfeitos com suas vidas, de acordo com várias pesquisas. A conclusão óbvia é que um clichê diário pode na verdade dar uma visão mais acurada da vida moderna do que a Economia 101: dinheiro realmente não compra felicidade. No entanto, isso dificilmente é considerado ciência social crível. Assim, um crescente grupo de economistas está hoje transcendendo o tradicional ceticismo da profissão sobre entrevistas pessoais e explorando informações de pesquisas num esforço para explicar a contradição. Eles estão se associando a psicólogos e sociólogos que têm estudado a questão há anos. No último outono, por exemplo, a Woodrow Wilson School, da Princeton, abriu o Centro para Saúde e Bem Estar. Cerca de metade dos professores associados ao centro, incluindo seu diretor, são economistas. Uma das conclusões mais intrigantes é de que o dinheiro, na verdade, faz as pessoas mais felizes, mas que ele é menos potente do que o imaginado. Quando as pessoas ganham na loteria ou herdam uma grande quantia de dinheiro, por exemplo, elas se tornam mais satisfeitas com suas vidas, segundo recente pesquisa. Mas nos últimos 60 anos, e particularmente nos últimos 30, uma poderosa rede de forças sociais tem tido mais peso do que o efeito do aumento da renda para o bem estar das pessoas. As pessoas trabalham mais horas, perdem seus empregos mais freqüentemente e, mais importante, casam-se menos e se divorciam mais do que o fizeram no passado. Tudo isso ajuda a explicar por que a média da família americana poderia receber um aumento de 16% entre 1970 e 1999, enquanto a porcentagem das pessoas que se consideravam "muito felizes" caía de 36% para 29%. "O dinheiro realmente compra a felicidade", diz David G. Blanchflower, economista da Datmouth, que juntamente com Oswald estudou o bem estar na Inglaterra e nos Estados Unidos. "Apenas não comprou o suficiente." Usando dados do International Social Survey Program, um consórcio de pesquisas, Blanchflower e Oswald descobriram que uma porcentagem incomum de americanos gostariam passar mais tempo com a família. No Japão, 44% das pessoas estão nessa categoria. Na Dinamarca, Israel e Itália, cerca de 65%. Na Alemanha e na Inglaterra, cerca de 75% e nos Estados Unidos, 85% disseram querer estar mais com a família. Em teoria, muitos americanos hoje são financeiramente seguros para poder fazer o que quiserem. Os pesquisadores sabem que tudo isso é especulação. Mesmo 27 anos depois de o professor da Universidade da Pensilvânia, Richard Easterlin, notar a divergência entre riqueza e felicidade, não há explicações plausíveis que estejam firmemente baseadas em informações. Apesar do aumento de divórcios e horas trabalhadas, por exemplo, os economistas dizem que esperavam que os ganhos financeiros tivessem feito as pessoas mais felizes do que elas são. "Estamos procurando por uma grande idéia", diz Blanchflower. "Isto é muito importante e nós não sabemos a resposta."

Agencia Estado,

19 Maio 2001 | 22h13

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