AFP PHOTO / CLAUDIO REYES
AFP PHOTO / CLAUDIO REYES

Piñera, o bilionário que pode reconduzir a direita ao poder no Chile

Favorito nas pesquisas para a eleição presidencial de domingo, ele pode se tornar o único político de direita a governar o país em duas ocasiões

O Estado de S.Paulo

17 Novembro 2017 | 15h55

SANTIAGO - O bom faro para os negócios o levou a se tornar um dos homens mais ricos do Chile e sua persistência a ser o primeiro presidente de direita em quase 50 anos. Agora, o empresário Sebastián Piñera pode reconduzir a direita ao poder no país.

Chile encerra campanha com Piñera na dianteira

Se conseguir isto, como todas as pesquisas antecipam, seria o único político de direita a governar o Chile em duas ocasiões, ao final de um longo caminho que sempre trilhou junto ao manejo de seus negócios, que o levaram a ter hoje uma fortuna avaliada em US$ 2,7 bilhões, segundo a revista Forbes.

Piñera transitou por uma linha tênue que se confunde entre a gestão de seu patrimônio e os deveres de um homem de Estado, e teve que dobrar o seu caráter impulsivo para ganhar a confiança do eleitorado de centro-direita.

"Não pode se dedicar a ganhar dinheiro e governar o país. Ou um, ou outro", acusou o candidato governista Alejandro Guillier, segundo colocado nas pesquisas da disputa presidencial de domingo.

Quando chegou em 2010 à Presidência, aos 60 anos, depois de duas décadas de carreira política e quatro eleições presidenciais na bagagem, dilatou a venda de ações de uma emissora de televisão, da companhia aérea LAN (agora Latam, após a fusão com a brasileira TAM) e o time de futebol Colo-Colo.

"Na vida nem sempre fazemos o que queremos e, pelas razões que vocês sabem, tomamos a decisão de vender o Colo-Colo", disse Piñera, justificando essa operação que lhe deu rendimentos de 7,4 milhões de dólares.

Enquanto era presidente, houve uma disputa marítima entre Chile e Peru no Tribunal de Justiça de Haia, e uma de suas empresas comprou ações da companhia peruana de pesca Exalmar, que se beneficiou da sentença internacional que modificou a fronteira marítima entre os dois países, somando cerca de 22 mil quilômetros de mar para o Peru, mas que foi recentemente suspensa pela Justiça chilena.

'Aprender com erros'

Em 2009, Piñera conseguiu romper com décadas de hegemonia de governos de centro-esquerda - havia sido derrotado por Michelle Bachelet em 2005 - para alcançar a presidência do Chile após ser deputado e senador, liderando, depois do retorno à democracia, a renovação da direita com a chamada "Patrulha juvenil".

Os 5 desafios do próximo presidente do Chile

Suas promessas de uma nova forma de governar logo desmoronaram. A realidade se impôs: governar um país não é o mesmo que administrar empresas.

"Se deu conta de que foi muito mais complexo do que pensava. Seu período no Palácio de La Moneda o fez aprender que as coisas são mais difíceis", segundo uma de suas biógrafas, a jornalista Bernardita del Solar.

Devido a tropeços e às piadas públicas por conta de seus erros frequentes ao citar dados históricos, compilados pelo semanário "The Clinic" nas chamadas 'Piñericosas', Piñera se manteve moderado nesta campanha de reeleição, traçada desde o dia em que deixou La Moneda com 50% de apoio.

Após a irrupção do candidato de ultradireita José Antonio Kast, abandonou o desejo de emergir como líder de uma direita renovada e democrática, distante da ditadura de Augusto Pinochet, da qual sempre foi crítico.

Direita chega como favorita para eleições presidenciais no Chile

Um primeiro aviso de suas intenções foi dado durante seu governo anterior, quando enfrentou o próprio setor ao anunciar o fechamento de uma prisão especial para repressores e qualificar civis que apoiaram a ditadura de "cúmplices passivos".

"Não quero aprofundar divisões ou desencontros no interior da centro-direita, quero o contrário", disse Piñera ao anunciar o fechamento da cadeia que abrigava - com grande luxo - os principais repressores do regime de Pinochet.

Nova campanha, velhos problemas

Em meio à queda da popularidade de Bachelet após o escândalo de corrupção que envolveu seu filho mais velho, a imagem de homem próspero de Piñera voltou a agradar o eleitorado chileno, que hoje o tem, com 34,5% da preferência, como favorito para vencer as próximas eleições, talvez até no primeiro turno.

Uma revanche para Piñera, que ao final de seu governo confessou ter "inveja" de Bachelet pelo carisma inato e pela grande proximidade que consegue com as massas. Ele, ao contrário, parece frio, distante e soberbo.

Com sua nova candidatura voltaram também à cena pública seus tiques nervosos - um incômodo movimento de ombros -, seu rosto franzido, o ostentoso relógio vermelho que rompe com sua preferência pelos ternos escuros e as piadas (algumas machistas e de mau gosto) que costuma fazer frente a situações públicas. / AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.