‘Piñera tomou o leite antes de ordenhar a vaca’, afirma especialista

Para o cientista político Patricio Navia, eleição no Chile está indefinida, mas a direita errou ao acreditar que vitória seria fácil

Entrevista com

Patricio Navia, cientista político

Rodrigo Turrer, O Estado de S.Paulo

16 Dezembro 2017 | 21h00

A direita no Chile errou ao acreditar que maioria da população era contra as reformas que a presidente Michelle Bachelet tentou implementar, como a gratuidade da educação superior, na opinião de Patricio Navia, cientista político da Universidade de Nova York. “Se você analisar a votação, 55% dos eleitores votaram em candidatos que defendem essas medidas, que prometeram defender e manter as reformas de Bachelet”, diz Navia em entrevista ao Estado.

- Guillier pode virar a eleição e ganhar no segundo turno?

Qualquer um pode ganhar. Esta é, sem dúvida, a eleição mais aberta e disputada que já presenciei no Chile. Os peruanos entendem bem o que é isso. Piñera é de direita e Guillier é um pouco mais de esquerda, e está ocorrendo uma dinâmica muito parecida com a que ocorreu no Peru, em 2016, com o voto antifujimorista, quando Pedro Pablo Kuczyski venceu Keiko Fujimori. No Chile, há um voto anti-Piñera muito forte, ainda que não tão forte como o voto anti-Fujimori no Peru. Então, todos os candidatos da esquerda estão se agrupando atrás de Guillier, apenas para frear Piñera.

- Por que o voto anti-Piñera ganhou força?

Quando ele foi presidente teve uma das aprovações mais baixas da história do país, beirando os 20%. Foi muito impopular. Além disso, ele representa os abusos empresariais e uma certa elite que muita gente no Chile rechaça.

- A vitória de Piñera no primeiro turno pode ter amainado a cisão na esquerda que ocorreu no governo Bachelet?

A esquerda está unida para derrotar Piñera. Mesmo sem Guillier ser um grande candidato, que só obteve 22% dos votos no primeiro turno, tem boas chances de ganhar, pois há uma enorme aversão a Piñera. Muitas pessoas vão votar contra Piñera, não a favor de Guillier. A campanha de Piñera errou demais. 

- Qual foi o grande erro da campanha?

Piñera e a direita tomaram o leite antes de ordenhar a vaca. Deram a corrida como ganha antes mesmo de correr. Eles acreditaram que os chilenos rejeitavam as reformas que Bachelet tentou implementar, como a gratuidade da educação superior e as reformas de seguridade social. Piñera começou sua campanha atacando essas medidas e dizendo que acabaria com elas. Mas se você analisar a votação, 55% dos eleitores votaram em candidatos que defendem exatamente essas medidas, que prometeram defender e manter as reformas de Bachelet.

- A polarização política afetou o resultado da eleição?

O Chile não é um país polarizado. As eleições é que o polarizam. A maioria dos chilenos quer um governo que ajude o país a ficar melhor, que permita maior crescimento econômico, mas que também permita mais direitos. Ganhe quem ganhar (hoje), o país não vai mudar radicalmente porque existe um pacto social. Vão mudar as prioridades e as ênfases, mas o Chile não vai mudar radicalmente de direção. O Chile vai seguir sendo uma economia social voltada para o mercado.

- Quais são os desafios do Chile, com a direita ou com a esquerda no poder?

Independente de quem ganhe, o próximo presidente vai começar sua gestão em um contexto de debilidade política. Se Guillier ganhar, sua aprovação vai cair rapidamente, porque a população votou mais contra Piñera do que por Guillier. Se Piñera ganhar, vai liderar um governo altamente polarizado, e um Congresso hostil, que vai tentar defender as reformas que Bachelet implementou em seus quatro anos de mandato. Apesar disso, o país vai continuar seguindo a trilha de reformas moderadas e pragmáticas que são a norma do país desde os anos 90. 

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