AFP PHOTO / LLUIS GENE
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Plebiscito catalão reaviva desejos nacionalistas dos Bálcãs

Autoridades sérvias denunciam o suposto ‘duplo padrão’ da União Europeia, que rejeita a independência catalã, mas reconhece a de Kosovo, declarada em 2008

O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2017 | 11h17

BELGRADO - O plebiscito catalão reavivou os sonhos dos nacionalistas para mudar as fronteiras dos Bálcãs, uma ambição perigosa em uma região onde uma guerra intercomunitária acabou com mais de 100 mil vidas nos anos 1990.

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Desde os sérvios da etnia albanesa do sul do país até os sérvios bósnios, os croatas e os defensores da autonomia da Província de Voivodina, no norte da Sérvia, todos se perguntam o mesmo desde o dia em que foi realizado o plebiscito catalão no dia 1.º de outubro: por que não nós?

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No dia da votação, a capital de Voivodina, Novi Sad, e outras cidades da região amanheceram com grafites nos quais se lia “Voivodina = Catalunha”. Perto da Catedral de Mostar, no sul da Bósnia, uma bandeira de "Herceg Bosna" - entidade autoproclamada dos croatas da Bósnia durante a guerra - foi pintada com as cores da Catalunha e a inscrição “Boa sorte! Somos os próximos!”, segundo a imprensa local.

Em Belgrado, as autoridades sérvias denunciam o suposto “duplo padrão” da União Europeia (UE, ao rejeitar categoricamente a independência catalã, mas reconhecer a de Kosovo, declarada em 2008. A Sérvia segue considerando como sua a antiga província, povoada por cerca de 90% dos albaneses.

“Como puderam ratificar a independência de Kosovo, e sem plebiscito? Como 22 Estados membros (que reconheceram Kosovo) puderam legalizar uma separação que viola a lei europeia, na qual se baseia a política da UE?”, questionou o presidente sérvio, Aleksandar Vucic.

Durante a guerra de Kosovo, entre as forças de Belgrado e os independentistas (1998-1999), Vucic era ministro da Informação de Slobodan Milosevic, paladino da “Grande Sérvia”. Convertido ao centrismo, hoje ele negocia a adesão de seu país à UE. Seu governo apoiou Madri, uma das cinco capitais do bloco europeu que não reconhecem Kosovo.

Mas Belgrado tem em mente sua geografia política: ao sul, albaneses de Presevo e bósnios de Sanzak; ao norte, Voivodina e suas 20 comunidades. O chefe da Liga dos Social-democratas de Voivodina (LSV), Nenad Canak, que pede mais autonomia, viajou no dia 1.º de outubro a Barcelona.

Ainda assim, Voivodina não é o que mais preocupa Florian Bieber, especialista em Bálcãs da Universidade de Graz, na Áustria. Segundo ele, a região tem “uma certa identidade, mas não um movimento forte por independência (...) ou uma distinção cultural”.

Este não é o caso em Presevo - que faz fronteira com Kosovo -, cujos 75 mil habitantes são quase exclusivamente albaneses. Por lá, a “distinção cultural” é a causa de uma animosidade aberta. Em 2001, o Exército sérvio e os rebeldes albaneses protagonizaram vários confrontos. A situação se acalmou desde então, mas o sonho de se unir a Kosovo não desapareceu.

O líder do Movimento pelo Progresso Democrático, Jonuz Musliu, apoiou publicamente o plebiscito catalão e defendeu que uma consulta deste tipo, como a que foi organizada em 1992, “em Presevo é igualmente legítima”.

Bósnia

A Bósnia é outro ponto sensível. Os sérvios (menos que um terço dos 3,5 milhões de bósnios) do país estão agrupados em sua entidade, a República Sérvia”. Mais de 20 anos depois de uma guerra intercomunitária que deixou 100 mil mortos, eles seguem jurando fidelidade a Belgrado e não a Sarajevo.

Em várias ocasiões, o primeiro-ministro da República Sérvia ameaçou realizar um plebiscito de independência. Depois do catalão, “talvez seja o momento de começar a falar de forma racional sobre uma separação pacífica da Bósnia”, advertiu. “É evidente que se (os independentistas catalães) forem bem-sucedidos, isso animaria (...) Milorad Dodik, presidente da República Sérvia, a buscar seu objetivo”, segundo Bieber.

Isso poderia incentivar os 120 mil sérvios do norte de Kosovo. Nas ruas de Mitrovica, a bandeira sérvia tremula e imagens de Aleksandar Vucic são onipresentes. No verão, o ministro sérvio das Relações Exteriores, Ivica Dacic, mencionou publicamente “uma separação” da região povoada por sérvios.

Contudo, lembra Bieber, a comunidade internacional só reconhece Estados novos em “circunstâncias extraordinárias”, nas quais haja uma “repressão massiva” e um “movimento forte e violento de independência”. Esse era o caso da ex-Iugoslávia dos anos 1990. “A Catalunha não entra em nenhuma dessas categorias, não mais do que a República Sérvia e o norte de Kosovo.” / AFP

 

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