EFE/ARCHIVO/Leo La Valle
EFE/ARCHIVO/Leo La Valle

Polícia prende empresário kirchnerista

Lázaro Báez montou um império ligado à construção no governo anterior da Argentina e deu sinais de que pode envolver antigos aliados

Rodrigo Cavalheiro CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

05 Abril 2016 | 20h09

O empresário argentino Lázaro Báez, conhecido como o “czar da construção” em razão das concessões que conseguiu durante o kirchnerismo, foi preso na tarde desta terça-feira, 5. A Justiça acelerou a investigação por lavagem de dinheiro e associação ilícita desde que uma gravação de seu filho contando pilhas de dólares tornou-se a mais popular do país. Báez deu indícios de que pode comprometer líderes kirchneristas.

O juiz Sebastián Casanello considerou que o uso pelo empreiteiro de um de seus aviões, dois dias antes de um depoimento marcado para quinta-feira, representava risco de fuga. O ex-bancário, preso no aeroporto internacional de San Fernando, a 30 quilômetros de Buenos Aires, fez fortuna no ramo da construção na Província de Santa Cruz, berço político dos ex-presidentes Néstor (2003-2007) e Cristina (2007-2015).

Há uma semana, num sinal de que não enfrentará a Justiça sozinho, Báez reproduziu em seu jornal a notícia de que Alicia Kirchner, cunhada da ex­presidente, vendeu-­lhe uma casa em 2003. Após a convocação de Báez a depor, Alicia, governadora da Província de Santa Cruz, afirmara que ele nunca tinha sido parceiro da família. “Que Alicia não perca a memória. Silêncio é saúde”, ameaçou Báez, que multiplicou seus bens 12 vezes durante os governos dos Kirchners. Em sua última declaração patrimonial, de 2013, ele tinha US$ 18 milhões.

 A delação premiada existe na Argentina para crimes de narcotráfico e terrorismo. O governo Macri pretende aprovar uma lei que inclua corrupção. Alguns juristas argumentam que juízes já podem oferecer acordos por analogia, mas não há precedente.

O cerco sobre o empreiteiro começou a se fechar dia 16, com a divulgação de um vídeo de 2012 em que seu filho, Martín Báez, usa uma máquina para contar fardos de dinheiro enquanto festeja com uísque em uma sede da empresa da família apelidada de “Rosadita”, referência à proximidade dos Báez da sede presidencial.

Um sinal de que o empresário não tinha a mesma proteção desde a posse de Mauricio Macri, em dezembro, veio de Ricardo Etchegaray, que comandou o Fisco no kirchnerismo e hoje é titular da Auditoria Geral da Nação. “Ele vai acabar preso”, disse Etchegaray em entrevista há duas semanas. A previsão do ex-aliado acelerou o rompimento com os Kirchners. “Eu posso demonstrar a origem de meu dinheiro. Etchegaray e Alicia, não”, afirmou o empresário. 

Em retaliação, a governadora cancelou 24 projetos de Báez na província. Depois de demitir 1,8 mil operários, ele alegou estar em insolvência. Báez usava offshore em paraísos fiscais por meio da empresa panamenha Mossack Fonseca, da qual vazaram os documentos que alimentaram o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos no caso dos Panama Papers. 

O empreiteiro é o pivô da principal investigação sobre os Kirchners, o “caso Hotesur”. Há indícios de que quartos de hotéis da família foram alugados apenas no papel e pagos por ele, uma forma de lavar dinheiro. A imagem de Báez algemado e com colete teve na Argentina impacto similar à de empreiteiros presos no Brasil. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.