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Política de Obama é a correta

Desde o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos precisam se impor cada vez menos pela força

Fareed Zakaria

“Diante da insegurança e uma liderança vacilante no campo da política externa, dúvidas são levantadas por toda parte. O governo está afetado por uma psicose similar à de Hamlet e fica paralisado cada vez que precisa adotar uma ação decisiva.” Essa é uma das críticas à política externa do presidente Obama? Na verdade, foi ela feita ao presidente John F. Kennedy por Richard Nixon, em 1961. Criticar presidentes por fraqueza é uma figura de retórica padrão em Washington porque o mundo é complexo. Quando coisas ruins acontecem, Washington é acusado por elas. Para determinar como os EUA - e Obama - devem agir, precisamos primeiro entender a natureza do mundo e os perigos envolvidos.

De 1947 a 1990, os Estados Unidos enfrentaram uma ameaça mortal, um inimigo estratégico, político, militar e ideológico. Washington tinha de formar uma aliança que fizesse frente ao inimigo e convencer os países entre os dois extremos a não cederem. Isso significou que preocupações quanto à determinação e credibilidade eram predominantes. Nesse contexto, os presidentes tinham de agir e adotar medidas para tranquilizar os aliados. 

O mundo hoje é diferente. É muito mais pacífico e estável do que observamos em décadas e, em alguns aspectos, em séculos. Os Estados Unidos não enfrentam nenhum inimigo similar à União Soviética. Os gastos militares americanos equivalem ao de 14 países reunidos, muitos deles aliados de Washington. O número de democracias no mundo aumentou mais de 50% nos últimos 25 anos. Os países que mostraram-se agressivos ou atuaram como adversários de Washington recuaram de maneira significativa. 

A recente agressão da Rússia à Ucrânia e à Europa implicará o aumento dos custos a curto e a longo prazo para Moscou. A China tem aterrorizado e irritado quase todos os seus vizinhos marítimos e todos eles clamam por um maior envolvimento dos EUA na Ásia. 

Nesse contexto, o que é necessário da parte de Washington não é exercer heroicamente o poder militar americano, mas, preferivelmente, empreender um esforço para se confraternizar com seus aliados, defender o livre mercado e os valores democráticos. 

O governo Obama na verdade é profundamente internacionalista. Ampliou as alianças na Europa e na Ásia e vem trabalhando com instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e as Nações Unidas, isolou os adversários e fortaleceu a ordem global, o que tem sido muito benéfico para os EUA e o mundo desde 1945.

A Casa Branca tem combatido a Al-Qaeda e seus aliados ferozmente. Mas tem se mostrado disciplinada quanto ao uso da força e isso é compreensível. Um país que exagera nas suas ameaças, reage de maneira excessiva aos problemas e intervém unilateralmente prejudica enormemente sua credibilidade a ponto de as pessoas ficarem preocupadas. Afinal, há apenas seis anos, os aliados mais próximos dos EUA se distanciaram de Washington, considerando que os Estados Unidos se tornaram um país agressivo, expansionista e militarista. 

Obama está combatendo essa atitude que vê no uso da força militar o único tipo de liderança internacional que tem significado. “Ter o melhor martelo não significa que qualquer problema seja um prego”, afirmou ele na quarta-feira. A mesma ideia foi expressa no discurso de despedida do presidente Dwight Eisenhower, um líder forte que recusou-se a intervir na crise de Suez, no colapso francês no Vietnã, e na Hungria, em 1956. 

“Eu vou lhe dizer o que significa liderança”, disse Eisenhower ao redator dos seus discursos. “Significa persuasão e conciliação, educação, paciência. É um processo longo, lento, mas funciona. É o único tipo de liderança que conheço - acredito - ou praticarei.” Talvez seja esta a doutrina de Obama. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO