Política externa, de FHC a Serra

A política externa voltou aos holofotes com a nomeação de José Serra como ministro das Relações Exteriores no governo interino formado por Michel Temer. Em seu discurso de posse no Itamaraty, Serra declarou que comandará a pasta sem atender a "conveniências e preferências ideológicas de um partido político e seus aliados". Trata-se de uma ruptura, em sua visão, com o que considera politização e partidarismo da área pelos antecessores petistas. De fato, foi na política internacional que posições históricas do PT reverberaram com mais intensidade, especialmente sob Luiz Inácio Lula da Silva. Muito mais do que na economia, era na diplomacia que Lula se parecia mais com Lula.

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2016 | 04h32

Com a desconfiança dos mercados internacionais após sua eleição, o primeiro presidente petista entregou cargos na economia a nomes mais ortodoxos, como Henrique Meirelles, presidente do Banco Central - agora, ministro interino da Fazenda. Já na política externa, Lula quis imprimir à pasta desde o início postura diversa do antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Ele nomeou Celso Amorim ministro das Relações Exteriores e, como assessor diplomático, Marco Aurélio Garcia, historicamente ligados à esquerda, e assumiu como postura a aproximação com potências emergentes, fortalecimento do Sul global e menor dependência de parceiros tradicionais como os EUA.

Como o próprio nome diz, política externa é política - não uma área técnica. Projeta imagem do governo no exterior e reflete sua visão de mundo. Envolve, portanto, algum viés ideológico. Acordos político-partidários à parte, a própria escolha de Serra e não de um diplomata de carreira para o cargo e a mudança na ênfase do Itamaraty para o comércio exterior refletem a mensagem que Temer quer transmitir ao mercado externo: a de que o governo terá foco na recuperação da economia, alinhando até mesmo as estratégias da política externa e de sua equipe econômica. O próprio Serra disse, em seu discurso de posse, que o ministério voltará ao "núcleo central do governo". (Antes de Serra, apenas dois chanceleres não eram diplomatas de carreira: Celso Lafer, com uma breve passagem pelo governo FHC, e o próprio FHC, no governo de Itamar Franco.)

PT e PSDB diferem em sua visão de mundo. E é verdade que, como em toda questão política, na diplomacia o discurso tem efeito. Mas, além da retórica, a política internacional dos governos petistas se concretizou mais pela continuidade do que pela ruptura real com o governo antecessor tucano.

FHC esforçou-se em ampliar a projeção externa do país e teve como política boas relações com todos os países, incluindo os desenvolvidos - especialmente EUA e os da Europa Ocidental. Fechou três acordos com o FMI: em 1998, 2001 e 2002, quando obteve empréstimo histórico de US$ 30 bilhões.

Lula esforçou-se em ampliar a projeção externa do país e teve como política boas relações com todos os países, incluindo os vizinhos menos desenvolvidos e os da África e Oriente Médio, além de emergentes. Embora o discurso histórico do PT fosse pela defesa da "soberania nacional", ao assumir a presidência Lula quitou a dívida com o fundo e manteve política de austeridade.

Embora a mudança no discurso ideológico fosse evidente, na prática muitas das ações na política externa petista foram continuidade do que já estava em curso na administração anterior. FHC já defendia o multilateralismo e mudanças no peso relativo de cada país nos organismos internacionais, incluindo o G7; criou o Mercosul e promoveu relações bilaterais com parceiros não tradicionais, como a China. Também defendia o protagonismo do Brasil em questões relevantes no cenário externo que não visavam apenas a ganhos comerciais: não proliferação nuclear, meio ambiente, reforma do Conselho de Segurança da ONU. A aproximação com os vizinhos na América do Sul teve destaque em sua gestão - até mesmo com Hugo Chávez, da Venezuela, que considerava "bem razoável". Da mesma forma, Lula mantinha a retórica contra a hegemonia americana, mas era muito próximo do presidente George W. Bush.

Como disse o próprio Serra em seu discurso de posse: "A diplomacia do século 21 não pode repousar apenas na exuberância da retórica".

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