Política externa no esquecimento

Candidatos republicanos demonstram pouco interesse nos detalhes do relacionamento dos EUA com o restante do mundo

O Estado de S.Paulo

23 Março 2012 | 03h02

Para muitos públicos estrangeiros, as primárias da eleição presidencial americana de 2012 - que infelizmente prosseguirão durante os próximos meses - devem ser uma assustadora demonstração de tudo aquilo que os americanos e seus líderes não sabem a respeito da política externa.

Os seguidos debates revelam o fato de que nenhum dos candidatos que pretendem desafiar o presidente Barack Obama está particularmente interessado nos detalhes de nenhum dos relacionamentos dos Estados Unidos com o restante do mundo - para não mencionar as crises no cenário internacional, especialmente aquelas que excluem soldados americanos.

De fato, a ignorância parece ser uma fonte de força para os candidatos que ainda participam da corrida. Quando John Huntsman, um dos primeiros a anunciar a candidatura, demonstrou certa capacidade intelectual ao apresentar argumentos úteis a respeito de como lidar com a China, pontuando sua fala com breves exemplos do seu domínio do mandarim, alguns dos outros candidatos responderam ridicularizando-o.

O fato de simplesmente conhecer a perspectiva chinesa parece ter desabonado Huntsman, que logo pôs fim à sua candidatura. Parece que cada vez mais a política externa excita apenas o lado emocional do cérebro de um candidato à presidência.

A verdade é que os americanos com frequência têm dificuldade para compreender por que deveriam se importar com os detalhes da política externa. Infelizmente, os candidatos republicanos pouco fizeram para ajudá-los. Em 2008, o então candidato John McCain fez tentativas ocasionais nesse sentido, chegando a explicar em determinado momento a um público cético suas opiniões a respeito dos crescentes problemas no Baluchistão. Na maioria dos casos, entretanto, os candidatos evitaram falar chinês e debater problemáticas províncias paquistanesas.

Talvez o mundo espere que o povo americano - os condutores da única superpotência do mundo - estivesse muito mais envolvido nas questões da política externa. Em vez disso, o que a comunidade internacional vê são os americanos reduzindo cada vez mais seu envolvimento no mundo a um simples teatro das moralidades - parecendo evocar o icônico papel de Gary Cooper como o xerife solitário em meio aos covardes moradores em Matar ou Morrer. Aqueles que enxergam um papel a ser desempenhado por uma "coalizão dos dispostos" talvez tenham a mente suficientemente aberta para pensar em Rio Bravo, no qual John Wayne recebe bem alguns aliados.

Os estrangeiros que visitam os EUA costumam comentar que os americanos estão provavelmente entre os povos mais patrióticos do mundo, e essa característica torna-se cada vez mais acentuada. As pessoas costumavam pendurar bandeiras americanas na porta de casa somente nos feriados nacionais. Caso contrário, eram vistas somente do lado de fora dos edifícios do governo. Hoje, elas estão por toda parte durante o ano inteiro - e parece que as maiores bandeiras são encontradas do lado de fora das concessionárias de veículos, por mais que estas vendam carros importados. Da mesma maneira, durante décadas, os jogos de beisebol foram precedidos do hino nacional. Hoje em dia, depois de dois terços da partida, pede-se aos fãs que se levantem novamente para cantar o hino.

É claro que parte da dinâmica atual tem a ver com as consequências dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Mas essa onda de sentimento patriótico parece ser sustentada por forças ainda mais potentes - talvez por uma frustrante percepção de que as motivações americanas não são devidamente compreendidas no restante do mundo. Uma canção country antiga e ainda popular resume isso no refrão: "Tenho orgulho de ser americano, onde ao menos sei que sou livre".

Ao menos? Os Estados Unidos têm uma economia do conhecimento e um dos mais elevados padrões de vida do mundo há décadas. A liberdade é sem dúvida o alicerce desse sucesso, mas, sem querer ir deliberadamente contra a maré, essa conquista também é motivo de orgulho. Mesmo hoje, a economia americana continua sendo uma das características do país mais admiradas no restante do mundo - incluindo a China.

Ainda assim, os americanos parecem desencorajados. Lembro-me do olhar entristecido no rosto de uma observadora americana das eleições no Iraque, uma legisladora estadual do Texas, quando esta perguntou a um representante iraquiano se o Iraque tinha planos de recompensar os EUA por "trazer a democracia" ao país dele. O representante (que demorou um pouco para entender a pergunta) balançou a cabeça, soturno. Ela se afastou.

Intelecto. Os debates presidenciais deste ano abordaram a política externa somente em termos do quanto cada candidato se mostraria "durão" o bastante para lidar com os desafios - em se tratando de fortaleza emocional, e não da base intelectual necessária para compreender esses desafios.

A história política americana está repleta de presidentes que, de uma maneira ou de outra, pareceram demonstrar fraqueza no palco mundial. O primeiro encontro do presidente John F. Kennedy com o premiê soviético Nikita Khruchev é um exemplo de destaque no folclore americano: o jovem presidente americano transmite uma aparência de fragilidade ao seu correspondente soviético, que então tenta instalar impunemente mísseis nucleares de longo alcance em Cuba, uma jogada que levou ao ponto mais próximo que EUA e URSS chegaram de uma guerra. Levando-se em consideração narrativas desse tipo, a política externa regride nas eleições americanas a uma espécie de teste de testosterona, deixando de lado aquilo que é necessário: um teste do conhecimento e da capacidade de decisão de um candidato.

A boa notícia é que são muitas as evidências históricas sugerindo que, uma vez na Casa Branca, o candidato desenvolve uma compreensão dos temas e um instinto diante das nuances necessárias para lidar com eles - um fato que deve acalmar o público internacional.

Seja ela causada por um excesso de TV a cabo, ou por um excesso dos próprios debates, a "temporada das asneiras" parece especialmente prolongada, até assustadora. Quer os candidatos à presidência o saibam ou quer não estejam nem remotamente interessados, o mundo escuta suas palavras com mais atenção do que aquela às vezes demonstrada por eles ao proferi-las. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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