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Por dentro da mente de um genocida

Adriana Carranca, enviada especial - O Estado de S.Paulo

27 Abril 2014 | 02h 07

Ex-miliciano traça perfil de Joseph Kony, procurado por crimes contra humanidade

GULU, UGANDA - "Okello! Venha! Corte as pernas daquele homem." Okello Moses Rubangangeyo, então um recruta de 16 anos, cozinhava para os cerca de 300 rebeldes em um descampado na mata quando o comandante o chamou. Eles voltavam de Aboke, no norte de Uganda, após sequestrarem 139 meninas do colégio St. Mary para levar ao chefe: Joseph Kony, o líder do Exército de Resistência do Senhor (LRA, na sigla em inglês).

O comandante lhe deu um pequeno machado. "Tínhamos machados grandes para cortar lenha. E os pequenos, você já os viu? As mulheres dançam com eles. Não servem para nada", disse Okello à reportagem. Foi um talento inofensivo que o levou ao comando do LRA: saber costurar. Era ele quem remendava os uniformes dos soldados e Kony passou a chamá-lo para confeccionar os vestidos de suas mulheres, mantidas em cativeiro.

Com o tempo, ele se tornou braço direito de Kony. Okello tinha duas mulheres e 34 meninos-soldados sob sua tutela. "Os menores, de 14 ou 15 anos, matam aleatoriamente sem mesmo os comandantes mandarem. Não sabem distinguir o que é certo e errado", conta. Os comandantes tinham encontros semanais com Kony. "Ele conhecia a todos pelo nome", lembra Okello. "Ele me chamava de escritor porque eu era o único com alguma educação."

Certa vez, Okello foi atingido por fragmentos de bomba, desmaiou por dez horas e foi deixado para trás pelos rebeldes. Em uma rara decisão, que colocava seus homens em risco, Kony ordenou que voltassem para buscá-lo. "Ele (Kony) estava preocupado. Quando disseram a ele que eu estava desaparecido, Kony deu ordens para que voltassem e procurassem por mim. Por isso, diziam que eu ressuscitei dos mortos."

Naqueles anos, antes de se tornar um fugitivo do Tribunal Penal Internacional (TPI), em 2005, quase duas décadas após a criação do LRA, em 1987, Kony reunia os batalhões às sextas-feiras e aos domingos para liderar um culto. "Ele era capaz de pregar por até seis horas, em pé. Todos tinham a chance de vê-lo."

Okello o viu pela primeira vez numa tarde de domingo no Sudão, quatro meses após ter sido sequestrado com 38 meninos, entre eles dois de seus irmãos. "Ele reuniu os recrutas sob uma árvore. Vestia trajes civis. Parecia gentil", diz Okello.

Kony criou o LRA após o desmembramento do Movimento do Espírito Santo, grupo armado que promoveu, nos anos 80, uma revolta do norte de Uganda em razão de abusos do poder central em Kampala. Ele era liderado por uma mulher: Alice Auma, sua tia. Ela dizia receber o espírito de um militar assassinado e agir sob seu comando.

Alice foi enterrada como santa. Seus seguidores acreditavam que ela podia curar, transformar pedras em granadas, fazer falarem as árvores para guiar os passos de seus guerrilheiros e fechar o corpo dos combatentes com óleo benzido, poderes que teriam sido herdados por Kony, que passou a se autoproclamar porta-voz de Deus.

Sem ter o mesmo apoio da população da tia, Kony passou a sequestrar crianças e adolescentes que cresceram sob sua doutrina, submetidos a uma lavagem cerebral. Eles como meninos-soldados. Elas como escravas sexuais, para procriar. Muitos nasceram no campo e engrossaram seu exército de fiéis maltrapilhos e aterrorizados.

Okello conta como o líder rebelde usava a Bíblia para justificar seus atos, colocando-se como um Deus cruel com os infiéis, mas justo com os seguidores. Naquela tarde, Kony pediu que os discípulos abrissem a Bíblia e citou Mateus. "Deus disse: 'Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o! E, se a tua mão te atrapalha, corta-a!' Está na Bíblia", disse ele para justificar as amputações que se tornaram a marca do LRA.

As palavras de Kony soavam como profecia para as crianças famintas, exaustas, amedrontadas. "Tínhamos caminhado por três semanas (de Uganda ao acampamento de Kony, no Sudão), milhares de quilômetros, enterrando os que morriam pelo caminho. De repente, aquele homem, que era um mito, dizia que somos especiais, os sobreviventes. Você começa a pensar que talvez suas palavras tivessem um significado, que talvez Kony estivesse conectado a algo espiritual", afirma Okello.

Antes do encontro com Kony, novos recrutas são submetidos a sessões contínuas de espancamentos e tortura durante três dias. "É o registro", afirma Okello. "Serve para tirar a vida civil, a ideologia da escola e transformá-lo em um militar."

Os meninos recebem chibatadas de acordo com a idade e têm o nome escrito nas costas com um chicote aramado. Não podem chorar, nem dormir. "São 16 chibatadas de quatro homens. E você tem de trabalhar depois. Eu carreguei sacos de açúcar de até 20 quilos."

Após dias apanhando e vendo muitos morrerem, Okello entendeu que para sobreviver teria de mudar sua atitude. "Foi numa emboscada em Aboke. Eu peguei a minha arma de um morto, tirei seu uniforme ensanguentado. Nós os vencemos e ficamos aliviados porque seis de nós conseguiram armas naquele dia. Tínhamos nos tornado soldados."

Okello confessa ter repetido em seus recrutas o mesmo ciclo de violência. "Eu era um comandante, não fazia com as próprias mãos, eu dava ordens. Eles tentam não chorar. Eu me acostumei com aquilo. Não posso me arrepender, porque a mesma coisa aconteceu comigo. E, quando forem mais velhos, eles farão o mesmo."

Por quase duas décadas, Kony encontrou refúgio no Sudão sob a proteção do presidente Omar Bashir, em retaliação ao apoio de Uganda ao movimento separatista do sul. Com a criação do Sudão do Sul e maior pressão da comunidade internacional, o apoio acabou.

Kony foi visto pela última vez no fim de 2012 em um acampamento na fronteira com a República Centro-Africana (RCA). Em novembro, o governo da RCA anunciou estar em negociação com o líder rebelde por sua rendição, mas as conversas não avançaram. Os EUA enviaram 150 soldados em apoio às tropas da União Africana na busca por Kony e oferecem US$ 5 milhões por informações que levassem à sua prisão.

Na quarta-feira, Charles Okello, um dos comandantes de Koni, foi capturado na RCA. Outros três morreram. O único ainda vivo e na ativa é Dominic Ongwen, também indiciado pelo TPI. "É difícil perdoar Kony", diz Okello, que defende Ongwen. "Ele foi sequestrado quando tinha 15 anos, como eu. Muitos me perguntam por que levei tanto tempo para fugir. Mas é impossível. Você vê os que tentam serem recapturados e mortos na sua frente."

Hoje, o LRA perdeu a força. Seu efetivo caiu de 5 mil para 250. "Mesmo os comandantes deixaram de acreditar (em Kony). As pedras não se transformavam em bombas, as arvores não falavam, a água não o tornava invisível. Os que começaram essa guerra, onde estão? Eles morreram", afirma Okello.

Uma noite, Okello deixou que uma de suas mulheres escapasse. Mandou que seu guarda-costas fosse atrás dela e conseguiu fugir. Um irmão morreu de cólera no Sudão, o outro escapou mais tarde. Recolhido pela família, ele retomou os estudos e casou-se com a jovem que namorava quando foi sequestrado, como se os últimos oito anos não tivessem existido, como se tivessem sido só um sonho. "Embora eu esteja esquecendo aos poucos, acho que aquelas coisas ainda estão presas à minha cabeça, porque os sonhos voltam e me atormentam até hoje."

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