Por que a derrota na Justiça favorece Donald Trump

Na leitura menos benigna de adversários, Trump quer é poderes autoritários

Hélio Gurovitz, Impresso

12 Fevereiro 2017 | 07h20

Adversários do presidente Donald Trump celebraram a suspensão do decreto proibindo a entrada nos Estados Unidos de cidadãos de sete países muçulmanos, mantida por unanimidade na Corte de Apelações do 9.º Circuito, em San Francisco. Trump lançou os impropérios de praxe pelo Twitter, e a decisão final caberá à Suprema Corte. Mesmo que perca, a derrota pode favorecê-lo.

Na leitura generosa de fãs, como o cartunista Scott Adams, o decreto é parte de uma estratégia de Trump para apaziguar partidários radicais, como supremacistas e racistas. “Quanto piores os protestos, mais argumentos Trump terá para convencer a extrema direita de que foi tão longe quanto o país deixaria”, escreveu Adams.

Depois da rejeição, qualquer decisão mais branda contra os imigrantes será aceita como mal menor. Na leitura menos benigna, de adversários como os juristas Jack Goldmith e John Yoo (ambos do governo W. Bush), Trump quer é poderes autoritários. “Ele está construindo o cenário para culpar os juízes depois de um ataque terrorista”, escreveu Goldsmith. “Dirá ao povo que tentou e falhou ao criar controles de imigração mais rígidos. Isso desviará a responsabilidade pelo ataque e o ajudará a ampliar seus poderes.” Em ambas as leituras, Trump ganha politicamente.

O que Stephen Bannon lê

 O repórter esportivo Marc Tracy, do New York Times, encontrou num aeroporto o estrategista-chefe de Trump, Stephen Bannon, com um livro embaixo do braço. Era um clássico do jornalismo: The Best and the Brightest, a investigação de David Halberstam sobre como os erros cometidos pelos “melhores e mais inteligentes” do governo Kennedy levaram à Guerra do Vietnã.

O que Stephen Bannon manda ler

Dois dias depois que Bannon foi pego lendo Halberstam, um esquerdista com quem partilharia – se tanto – o desprezo pelo establishment, o site Politico publicou uma lista das leituras que ele costuma recomendar. Ao lado de A Arte da Guerra, de Sun Tzu, e Antifrágil, de Nassim Taleb, nela aparecem The Fourth Turning, de William Strauss e Neil Howe, e blogueiros obscuros, unidos sob a visão apocalíptica de que tecnocratas e acadêmicos ameaçam a civilização ocidental.

A dimensão verdadeira das notícias falsas

O noticiário falso é um problema menor do que parece. Nos 12 meses anteriores à eleição americana, sites de “fake news” atingiram um décimo da audiência dos convencionais, afirma Jacob Nelson, pesquisador da Universidade Northwestern. Para influir no resultado eleitoral, uma única notícia falsa teria de ser tão persuasiva quanto 36 comerciais de TV, segundo a análise dos economistas Hunt Alcott e Matthew Gentzkow. Impossível.

A ineficácia dos protestos violentos 

Ativistas anti-Trump partiram para a violência como forma de chamar a atenção e atrair apoio. Mas essa tática não funciona, diz um estudo do sociólogo Robb Willer e dos psicólogos Matthew Feinberg e Chloé Kovacheff. Retórica inflamada, bloqueio ao trânsito e ataques à propriedade privada podem ajudar a ganhar publicidade, mas provocam antipatia pelos manifestantes e pela causa defendida por eles.

E se Pence resolver desafiar Trump?

Por enquanto, ela só foi usada nos thrillers de Tom Clancy e congêneres. Mas está lá na Constituição para casos de emergência. Pela 25.ª emenda, em vigor desde 1967, se o vice e pelo menos 8 dos 15 membros do gabinete julgarem que o presidente não está apto a ocupar o cargo, devem informar o Congresso – e o poder imediatamente muda de mãos. Se o presidente contestar, o vice precisará, como na votação do impeachment, de dois terços da Câmara e do Senado para permanecer no poder. Se isso ocorrer, será na certa chamado de “golpista”.

A crise adia os planos do Met

É gravíssima a situação financeira do Metropolitan Museum, em Nova York, conhecido pelas coleções de antiguidade e impressionismo. Com o caixa no vermelho em US$ 40 milhões, o Met abriu um programa de demissões voluntárias, adiou uma nova ala orçada em US$ 600 milhões e precisa cortar 10% do orçamento. Também reduziu a aposta em arte moderna e contemporânea, que começara a implantar na expansão ao prédio antigo do Whitney Museum.

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