Por que o Irã teme repórteres?

Prisão de jornalista do ‘Washington Post’ é resultado da ação dos grupos que não aceitam abertura

Azadeh Moaveni, O Estado de S. Paulo

21 Outubro 2015 | 06h50

Na maior parte dos anos em que morei no Irã como correspondente da revista Time, minha vida profissional assemelhava-se a um roteiro medíocre daqueles filmes de espionagem para a televisão. Era obrigada a ter contatos regulares com agentes dos serviços secretos que monitoravam o que eu escrevia e me ameaçavam para que revelasse as identidades das fontes. 

Essas sessões de interrogatório realizavam-se às vezes em apartamentos vazios do lado oposto da cidade, onde ninguém me ouviria gritar, e sempre me advertiam rispidamente de que ninguém podia saber que elas ocorriam.

Acostumei-me a ver um número não identificado piscar no meu celular e ouvir um chamado de uma voz de uma pessoa que não se identificava. Acostumei-me com as piadas macabras do agente encarregado de me acompanhar, a ser seguida e ameaçada. Como ele revelava coisas a respeito da minha vida que somente pessoas muito próximas poderiam conhecer, comecei a desconfiar de muitos dos meus amigos, e me sentia envenenada pela influência que ele exercia na minha vida. Mas, para mim, trabalhar no Irã envolvia este tipo de associação.

Filha de exilados iranianos que moravam na Califórnia, cresci ouvindo dizer que a República Islâmica era impiedosa. Por isso, na primeira vez que voltei ao Irã - com dupla cidadania - para trabalhar, em 1999, esperava algum tipo de interrogatório. Inicialmente, observando os repórteres ocidentais trabalhando com relativa liberdade, imaginava que as dificuldades seriam toleráveis.

Detenção. Somente no final, me dei conta de que eu estivera nas mãos dos “caras bonzinhos”. Desde que saí, em 2007, os serviços secretos da República Islâmica cresceram consideravelmente, assim como a intensa fragmentação do próprio establishment. Facções existentes no Judiciário e na Guarda Revolucionária, que às vezes trabalhavam com objetivos opostos aos do governo, montaram suas próprias agências de inteligência que operam com total impunidade, um Estado determinado a sabotar a distensão com os EUA e minar as forças pragmáticas que assinaram o acordo nuclear para pôr fim ao isolamento do Irã.

Jason Rezaian, repórter do Washington Post, preso há cerca de 15 meses, é a vítima mais recente desse método complexo e persistente. Há pouco tempo, ele foi considerado culpado de espionagem num processo secreto e só ficou sabendo disso, segundo seu irmão, assistindo ao noticiário na prisão.

Jason também é originário do norte da Califórnia. Apesar de meses de interrogatórios, posso imaginá-lo sentado na cela, perguntando-se o que teria feito de errado, além de tentar explicar o Irã ao mundo. Para o “Estado profundo”, o jornalismo pouco importa. A objetividade e a transparência escrupulosas que marcaram o trabalho de Rezaian em Teerã nunca foram suficientes para convencer os serviços secretos de que os iranianos-americanos não constituem uma ameaça à segurança.

Motivações. Os temores não dizem respeito propriamente à segurança. Durante o tempo que passei no Irã, meus agentes me conheceram num doloroso grau de intimidade. Eram os responsáveis pela renovação das minhas credenciais de repórter e, evidentemente, controlavam meu telefone e minha correspondência. Frequentemente lamentavam o fato de nós americanos sermos tão propensos a associar a elite iraniana com o resto do país. 

Mas a ala do “Estado profundo” que colocou Rezaian na cadeia não se importa com essas sutilezas. Não se trata dos antigos serviços secretos que tentavam entender a maneira como jornalistas funcionavam. Os que puseram Rezaian na cadeia têm uma visão ideológica do futuro do Irã que exige a persistência do isolamento.

Eles temem, com razão, que o presidente Hassan Rohani e seus aliados estejam procurando abrir o Irã ao mundo - e essa abertura acabe com seu apoio interno, até mesmo no próprio governo. Eles se dão conta de que a cobertura da mídia sobre o Irã está mudando nos últimos meses. Imagens outrora rotineiras de mulheres vestidas com chador e de milícias xiitas deram lugar a reportagens sobre moda e perfis de start-ups de tecnologia. Para eles, é um pesadelo - e sabem que aprisionar um repórter é uma maneira rápida de impedir que isso continue.

Os pragmáticos que cercam Rouani apreciam em particular o trabalho dos jornalistas iranianos-americanos. Eles reconhecem que estamos bem posicionados para escrever sobre a nossa pátria porque temos simpatias intrínsecas, maior conteúdo histórico e a facilidade da língua para documentar até que ponto o Irã está mudando. 

Durante os anos 2000, quando o país não aceitava que correspondentes americanos se fixassem, os EUA leram inicialmente artigos que falavam do Irã graças ao trabalho de um punhado desses repórteres com dupla nacionalidade.

Nós testemunhamos mudanças históricas do Irã, mas o custo para muitos, no final, foi muito alto. A repórter Nazila Fathi, do NYT, teve de sair do Irã depois dos distúrbios nas eleições de 2009 - e contou que atiradores tinham sua fotografia e ordens para atirar. Outros sofreram campanhas de difamação na imprensa da linha dura.

Às vezes, sinto saudade dos velhos tempos. Gostaria de voltar a me submeter àqueles interrogatórios, porque os julgo agora por aquilo que eram - a chance de um Estado profundamente desconfiado de compreender como funciona de fato o jornalismo - e ver de perto por que não precisa ser uma ameaça. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

AZADEH MOAVENI É PROFESSORA DE JORNALISMO NA KINGSTON UNIVERSITY E AUTORA DE ‘HONEYMOON IN TEHRAN: TWO YEARS OF LOVE AND DANGER IN IRAN’

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