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Gianni Cipriano/The New York Times

Por restringir uso de fornos à lenha, prefeito italiano ganha apelido de 'antipizza'

Antonio Falcone obrigou por decreto o uso de filtros nos fornos de San Vitaliano, em Nápoles, para tentar melhorar a qualidade do ar

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O Estado de S. Paulo

19 Janeiro 2016 | 15h23

SAN VITALIANO, ITÁLIA - Se existe um rótulo com o qual Antonio Falcone, médico transformado e líder cívico, não quer ser conhecido é "o prefeito antipizza". No entanto, é assim que a notoriedade chegou para o prefeito desta pequena cidade do interior napolitano no final de dezembro quando, em um esforço para diminuir a poluição do ar, Falcone emitiu um decreto banindo o uso de fornos a lenha que não estivessem equipados com filtros, para reduzir os poluentes tóxicos do ar. 

A proibição afeta as casas das famílias que possuem chaminés e negócios como padarias, restaurantes e - a maior controvérsia - pizzarias com forno à lenha, a ostentação gastronômica de uma região que afirma ser o lugar de nascimento de um dos produtos de exportação culinária mais conhecidos da Itália. A indignação estava garantida. 

"Fomos comparados com a China", reclama Pasquale Tufano, do Ristorante La Vigna, ressentido com o fato de que meia dúzia de pizzarias da cidade foram apontadas como culpadas e comparadas com um país cuja capital, Pequim, anunciou seu primeiro alerta vermelho contra poluição atmosférica em dezembro. 

O prefeito foi vítima de ataque nas redes sociais. Enfrentou protestos públicos e pedidos para que renunciasse. "Eu me tornei o prefeito antipizza, reclama Falcone, afirmando que só agiu a favor dos interesses de San Vitaliano. "Sou responsável pela saúde dos cidadãos dessa cidade. Tinha que começar em algum lugar." 

Na verdade, Falcone foi apenas um das dezenas de prefeitos italianos que adotaram medidas de emergência em dezembro depois que uma seca prolongada repetidamente manteve os poluentes do ar acima dos limites legais. 

Roma, que vem tentando reduzir as emissões dos carros para ajudar a limpar o ar, fez um rodízio dos veículos que podem circular com base no final par ou ímpar das placas. Milão baniu todo o trânsito por três dias consecutivos, sem muitos resultados. Essa última e outras cidades proibiram até os fogos do fim do ano. 

A Itália é um dos piores países da Europa na questão da qualidade do ar. A região Norte está cheia de indústrias, a manutenção de fornos privados é ruim, o congestionamento de veículos faz todos sofrerem, pois há uso generalizado de diesel e anos de gastos negligentes em infraestrutura para os trens de carga e o transporte público, acusam os ambientalistas. Até a geografia atrapalha a Itália, já que montanhas e vales impedem a circulação do ar necessária. 

Um estudo do governo de 2015 descobriu que cerca de 30 mil italianos morrem todos os anos por causa da poluição do ar. 

À medida que a situação piora neste inverno, e os municípios estão impondo proibições para as fontes de poluição, o ministro do Meio Ambiente convocou uma reunião de cúpula de emergência em Roma com representantes das regiões e cidades italianas. 

O grupo propôs diminuir os termômetros nas casas e escritórios, reduzir os limites de velocidade nas cidades, acabar com os carros velhos, encorajar o transporte público e limitar o uso de chaminés. Mas nenhuma das medidas tem validade legal, e sem uma abordagem nacional integrada para lutar contra a poluição - e a Itália não possui uma - a responsabilidade acaba sendo de prefeitos como Falcone. 

A lei local dá às pizzarias e a outros negócios até 29 de fevereiro para equiparem seus fornos com os filtros apropriados. A partir de primeiro de março, inspetores vão começar a fazer verificações. "Estamos dando tempo para que eles se preparem. É uma questão de civilidade", explica Tulliano Carpino, chefe do Departamento Técnico da cidade. 

"Deixe que os inspetores venham", diz um desafiador Giovanni Arricchiello, dono do restaurante Il Cavallino, em uma alameda de lojas de San Vitaliano. Como outros pizzaiolos locais, Arricchiello já tem filtros em seus fornos, por isso a lei não vai afetá-lo. 

"Você não consegue uma licença para abrir um restaurante sem eles", diz sobre os filtros, mostrando um folheto com a foto do seu modelo high-tech e os registros anuais de manutenção do restaurante. A maioria dos donos das pizzarias de San Vitaliano diz que já possui os filtros funcionando. 

Além dos fornos de pizza, Falcone afirma que a principal causa da poluição do ar em San Vitaliano ainda é um mistério. O trânsito pode ser intenso, mas a cidade, que fica a cerca de 24 quilômetros a nordeste de Nápoles, é pequena e não tem grandes indústrias. 

O município, no entanto, está do lado do trevo de uma rodovia, e é parte da muito povoada região de Nápoles, conhecida pela incineração ilegal de lixo tóxico pelo crime organizado. 

Vincenzo Russo, membro do conselho responsável pelo Meio Ambiente, sugeriu que os pellets - um biocombustível que usa como matéria-prima resíduos como a serragem - baratos e tratados com produtos químicos usados nos fornos e aquecedores podem ser os culpados. 

Os líderes de San Viataliano, diz ele, também começaram um estudo com a Universidade Federico II de Nápoles para determinar - entre outras causas - qual o impacto que uma usina que transforma lixo em energia, que fica em Acerra, uma cidade a menos de 19 quilômetros de distância, pode estar tendo na vizinha. 

"Mas a mensagem que se espalhou é que o prefeito é contra a pizza", diz Russo. 

Quando Falcone pediu um encontro com representantes de cidades vizinhas para discutir a questão da poluição, apenas dois administradores de nível médio apareceram, afirma. 

Os locais dizem que foram apontados como culpados de maneira errada e estão sendo punidos porque San Vitaliano é a única cidade da região a ter um monitor de qualidade do ar, que entrou em operação cerca de um ano atrás. 

"A poluição é um problema real para toda a região, mas o único monitor está aqui, por isso ficamos no fogo cruzado", explica Tufano, cuja pizzaria, La Vigna, está equipada com filtros. Ele diz que teve que passar boa parte das últimas duas semanas garantindo aos clientes que seu restaurante não seria fechado. / NYT

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