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EFE/Martial Trezzini

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MSF diz que quase cem colaboradores foram mortos ou feridos na Síria desde 2015

Segundo a organização, os reiterados ataques contra instalações hospitalares durante os cinco anos da guerra civil síria fizeram com que as equipes médicas soliciassem à ONG que não forneça mais as coordenadas de algumas instalações

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O Estado de S. Paulo

18 Fevereiro 2016 | 11h35

GENEBRA - Quase uma centena de colaboradores da ONG Médicos sem Fronteiras (MSF) foram mortos ou feridos desde o início do ano de 2015 na Síria, onde há três dias um dos hospitais apoiados pela organização, em Maarat al-Nuaman, na Província de Idlib, foi bombardeado.

A MSF afirmou que em 70 estabelecimentos médicos que apoia ao redor de Damasco e no noroeste da Síria foram registrados 7.009 mortos e 154.647 feridos de guerra somente no ano passado.

No entanto, esta é uma fração do custo humano da guerra civil, já que a maioria de mortos nem chega aos hospitais. "Entre 30% e 40% dessas vítimas foram mulheres e crianças, mas isto só dá uma ideia da situação, porque achamos que os números são muito mais elevados e a realidade é muito pior", disse Joanne Liu, presidente internacional da MSF, em entrevista coletiva.

Ela denunciou os ataques perpetrados na segunda-feira contra quatro hospitais, um deles apoiado por esta organização e onde milhares de pessoas eram tratadas mensalmente. "A cínica destruição de hospitais e o assassinato de equipes de saúde priva comunidades inteiras de atendimento médico vital", lamentou.

Joanne afirmou que em 2015 foram registrados 82 ataques contra os hospitais ou centros médicos apoiados pela ONG nos arredores de Damasco e no noroeste da Síria, e muitos deles foram tomados como alvo militar várias vezes.

No último ataque contra um dos hospitais que recebe sua ajuda, na cidade de Maarat al-Nuaman, morreram 9 pessoas da equipe médica, 16 pacientes e houve 10 feridos, em um ataque que a organização acredita ter sido perpetrado "pela coalizão liderada pelo governo sírio", na qual Rússia é uma parte essencial. "É possível que a Rússia esteja envolvida, mas não temos certeza", disse Isabelle Defourny, diretora de operações da MSF.

Esse ataque reproduziu uma tática chamada de "duplo golpe", que busca fazer o máximo número de vítimas bombardeando um alvo e repetindo a ação assim que as equipes de resgate chegam a ele.

A organização informou que na segunda-feira quatro mísseis caíram sobre o hospital de Maarat al-Nuaman com dois minutos de intervalo, e 40 minutos depois, quando tentavam resgatar os sobreviventes, houve uma nova rodada de bombardeios, que não terminaram ali. "Um hospital próximo, para onde tínhamos levado os feridos, foi bombardeado uma hora depois", relatou Joanne.

A MSF informou ter tomado a difícil decisão de não informar oficialmente ao governo sírio, nem a seus aliados russos as coordenadas de GPS de algumas instalações médicas como a que foi alvo de um ataque mortal esta semana. Segundo a organização, os reiterados ataques contra instalações hospitalares durante os cinco anos da guerra civil síria fizeram com que as equipes médicas solicitassem à ONG que não forneça mais as coordenadas de algumas instalações. Para elas, muitos dos ataques são deliberados.

Segundo Joanne, ataques deliberados contra a infraestrutura civil, incluindo hospitais que estão lutando para fornecer assistência e salvar vidas, tornaram-se rotina. "Hoje, na Síria, o anormal agora é normal. O inaceitável é aceito", afirmou ela. "A assistência sanitária na Síria está na mira de bombas e mísseis. É preciso deixar claro: ataques contra civis e hospitais têm de parar. A banalização desses ataques é intolerável."

A organização denunciou ainda que estão sendo criadas as condições para uma catástrofe humana no norte da Síria, onde estima que haja 100 mil pessoas amontoadas entre a linha de combate e a fronteira que a Turquia mantém fechada.

Trata-se dos deslocados que fugiram da ofensiva das forças governamentais, apoiadas por bombardeios aéreos russos, sobre Alepo e se dirigiram rumo a áreas mais ao norte.

"Cerca de 100 mil pessoas estão perto de Azaz (a 30 quilômetros de Alepo). Tentam escapar, mas estão detidas entre a frente de batalha e a fronteira", disse a diretora de operações da MSF, Raquel Ayora.

Comentando os recentes ataques em um dia contra quatro hospitais, um deles apoiados pela organização, Raquel afirmou que as pessoas têm cada vez mais medo de ir aos hospitais e seu próprio pessoal, que continuou trabalhando durante os quase cinco anos de guerra, chegou a uma "situação limite" e a um estado de "desespero".

"O povo está amontoado em campos de deslocados muito perto da fronteira turca, esperando que alguma das partes se atreva a chegar à fronteira, o que não é seguro porque cada vez há bombardeios mais e mais perto", explicou Ayora à agência EFE.

Nessas circunstâncias, o pedido às partes em combate é de que "a linha de combate não chegue até as áreas onde estão os deslocados".

Para Joanne Liu, as pessoas "têm direito de fugir de uma guerra". Ela sustentou que o nível de violência que se chegou na Síria "é espantoso e não tem precedentes". "É algo que nunca vimos em 44 anos de existência da Médicos Sem Fronteiras", acrescentou.

A MSF é uma das maiores organizações humanitárias independentes que oferecem serviços médicos vitais em situações de conflito e é a entidade que costuma permanecer operacional nos contextos mais perigosos. / COM EFE, AP e AFP

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