Pouca transparência, baixo crescimento e mais pobres no país

A classe média foi o setor que mais sofreu nos últimos anos na Argentina. Foram 1,3 milhão de pessoas que baixaram à pobreza, entre 2011 e 2014, o que significa que suas famílias não ganham o suficiente para comprar uma cesta básica, de 5.717 pesos (R$ 2.370).

O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2015 | 02h00

Essa é a população mais afetada pela queda no crescimento ocorrida a partir de 2011. Uma prova é que o porcentual de indigentes são se modificou significativamente. Se manteve estável, entre 2011 e 2013, ao redor de 5,5%. Subiu para 6,4%, em 2014, porque os trabalhos precários, com que os mais miseráveis se sustentam remuneram bem menos.

A impressão de que aumentou o número de indigentes no país deve-se ao fato de que aumentou número de atividades informais, como catar lixo ou esmolar. São trabalhos de baixa produtividade, mas importantes porque compensam o processo inflacionário para essa população.

Só por isso não aumentou tanto o desemprego. Porque os mais pobres não só tem os programas sociais, mas também encontraram bicos para sobreviver. Se não fossem os pelos planos sociais, o número de indigentes teria dobrado no país.

O emprego informal, não registrado, seja assalariado ou não assalariado, está ao redor de 47% a 49%. Dentro desse grupo, metade tem empregos de muito baixa produtividade. A metade dos salários urbanos está abaixo dos 6 mil pesos (R$ 2.486).

O número de lares com programas sociais subiu para 28,5%. Essas transferências diretas por parte do Estado são uma fonte de renda muito importante para as famílias não passarem fome ou entrarem em situação de indigência extrema.

Por outro lado, são também um indicador de subdesenvolvimento social. Estamos falando de quase três em cada dez lares dependendo de um programa social para garantir uma renda mínima de subsistência. Isso mostra que o sistema econômico vai mal.

Como há um estancamento da economia e inflação, há cerca de 6 milhões de pessoas fora do sistema. Esse problema se agravou. Os pobres conseguiram apenas manter o seu nível de consumo. Esse é o núcleo duro de exclusão social, que se concentra nos grandes centros urbanos, mas também em outras áreas.

A controvérsia na Argentina sobre quem é pobre deve-se a uma questão política. Em determinado momento, mudou-se o critério para quantificar os pobres, que era aceito por todos, e depois o governo simplesmente deixou de contar.

Os acadêmicos tentam uma medida que se aproxime da real. O governo teria mais capacidade, mas não quis fazer e, quando tentou, fez mal. Ele apresenta um cenário como se houvesse taxas de indigência favoráveis. Um grande passo para o próximo governo argentino seria voltar a apresentar estatísticas transparentes. Com isso, haverá uma ampla parte da população incluída em políticas sociais, com direitos para reclamar, segundo a Constituição.

SOCIÓLOGO E COORDENADOR DO OBSERVATÓRIO

DA DÍVIDA SOCIAL, DA UNIVERSIDADE CATÓLICA

DA ARGENTINA

Mais conteúdo sobre:
O Estado de S. Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.