EFE/ Kimimasa Mayama
EFE/ Kimimasa Mayama

Premiê tem votos necessários para rearmar Japão 

Shinzo Abe tem agora supermaioria nas duas Casas do Parlamento e caminho livre para propor a revisão da Constituição pacifista 

O Estado de S.Paulo

24 Outubro 2017 | 05h00

TÓQUIO - O primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, assegurou uma supermaioria com a vitória nas eleições parlamentares de domingo, garantindo um forte mandato para sua política rigorosa contra a Coreia do Norte e para seus planos de reformar a Constituição pacifista aprovada após a 2.ª Guerra. 

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A coalizão governista praticamente esmagou uma fragmentada oposição e conseguiu uma ampla maioria parlamentar de dois terços. O Partido Liberal Democrata (PLD), de Abe, obteve 283 cadeiras e seu parceiro Komeito, ficou com 29. Juntos, eles têm mais do que as 310 cadeiras ou dois terços da Câmara Baixa, composta por 465 membros, segundo dados da rede estatal NHK.

Trata-se de uma vitória significativa porque, para propor uma emenda da Constituição, além de um referendo nacional, é necessário ter essa maioria de dois terços em ambas as Câmaras parlamentares, e a coalizão governante já possui esse número na Câmara Alta.

Uma oposição dividida e uma participação afetada pela passagem de um potente tufão pelo país no dia das eleições – que deixou cinco mortos – deram ao conservador Abe uma ampla vitória que o encaminha, além disso, para seu terceiro mandato e a se tornar o primeiro-ministro que por mais tempo ficou no cargo na história do Japão.

Abe convocou as eleições em setembro, um ano antes do previsto, para aproveitar a fragilidade da oposição e uma alta em sua frágil popularidade graças à crise com a Coreia do Norte. A decisão provocou um terremoto político, com o desaparecimento da principal força de oposição, o Partido Democrático (PD), que governou entre 2009 e 2012, e estava afundado em uma intensa batalha interna após resultados eleitorais desastrosos.

Essas disputas deram lugar a uma cisão do seu setor mais liberal. Com isso, surgiu o Partido Constitucional Democrático do Japão (PCDJ), liderado por Yukio Edano, que se tornou a segunda maior força política do país com a obtenção de 54 cadeiras.

Por outro lado, o Partido da Esperança, criado justamente antes das eleições pela popular governadora de Tóquio, Yuriko Koike, colheu resultados decepcionantes, ficando em terceiro lugar, com 49 cadeiras, apesar de a princípio ter sido visto como alternativa real ao imbatível PLD, no qual ela militou até pouco tempo atrás.

O fato de Yuriko ter decidido não se afastar do cargo de governadora pode ter prejudicado sua performance na votação. O Partido Comunista do Japão (PCJ) assegurou nessas eleições 12 cadeiras, enquanto o Partido da Restauração (PRJ) e o Partido Social Democrata (PSD) obtiveram 10 e 1, respectivamente, segundo a NHK. 

Abe, o primeiro-ministro de 63 anos, prometeu mudar a Constituição de 1947, escrita após a derrota do Japão na 2.ª Guerra, para dar um reconhecimento até agora inexistente no texto ao Exército do Japão, chamado de Forças de Autodefesa, e assim potencializar as capacidades militares do país.

Para realizar essa reforma histórica, que conta com forte oposição de parte dos japoneses e de países vizinhos, como a China e a Coreia do Sul, são necessários os votos de dois terços dos parlamentares. Depois, a medida deve ser aprovada em referendo.

“Para fazer a reforma da Constituição é preciso liderança, mas, ao mesmo tempo, compreensão do povo japonês. Farei todo o possível para conseguir o maior apoio durante essa legislatura, trabalhando com os demais partidos”, disse Abe ontem em discurso para celebrar a vitória.

Consciente do baixo apoio popular à medida, Abe prometeu promover um extenso debate sobre a reforma e anunciou que retirou o prazo de 2020 para concluí-la para que “o máximo de pessoas possível concorde com ela”. 

O primeiro-ministro poderá, além disso, dar sequência ao ambicioso programa econômico, iniciado em 2012 e conhecido como “Abenomics”, que busca, por meio de estímulos, reformas e investimentos públicos, tirar o país da deflação crônica. 

O presidente dos EUA, Donald Trump, telefonou ontem para Abe para felicitá-lo por sua “grande vitória”, segundo informou um alto funcionário da Casa Branca. Trump, segundo ele, disse ao premiê que ele havia recebido um forte “mandato” do povo japonês. / NYT, REUTERS, EFE e AFP 

Para Entender 

A baixa popularidade costuma ser cruel com os primeiros-ministros japoneses e muito comumente pode custar o seu cargo. O próprio Shinzo Abe experimentou as consequências da baixa popularidade ao renunciar com apenas um ano de cargo, no seu primeiro mandato (2006-2007). Entre os cinco anos que separaram o primeiro governo de Abe e o segundo, em 2012, o Japão teve cinco diferentes primeiros-ministros. Todos caíram em razão da baixa popularidade que enfrentaram no cargo. Apenas um deles, Taro Aso, não teve de renunciar. Eleito em 2008, ele deixou o cargo após ser derrotado nas eleições do ano seguinte.

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