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Síria

Prenúncio de reviravolta

Bashar Assad, o tirano que reina em Damasco, não esconde seu orgulho. A cidade de Palmyra, monumento histórico arrebatado pelos mercenários do Estado Islâmico (EI) sem nenhuma oposição em maio de 2015, foi reconquistada. Podemos compreender o orgulho que deixou Assad inebriado.

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Gilles Lapouge

30 Março 2016 | 05h56

Na interminável litania de sucessos militares dos assassinos do EI, a retomada de Palmyra é uma bela notícia. Pela primeira vez os militantes do EI, cuja sedução tinha a ver com sua invencibilidade, recuaram. Sua derrota em Palmyra pode ser prenúncio de uma reviravolta na guerra. E Assad tem razão em chamar para si a glória.

O problema é que, se Palmyra foi arrancada das garras do EI, os soldados sírios não serviram para grande coisa. O que vimos em Palmyra? Alguns soldados andrajosos de Assad, mas basicamente milicianos xiitas, vindos de outros lugares: militantes do Hezbollah libanês e os terríveis guardiões da revolução, xiitas também, que são a nata do Exército iraniano.

A esses soldados se juntaram aviões russos, que bombardearam posições do EI. O hábil Putin, que deixa os ocidentais sem voz, especialmente o chefe dos ocidentais, o filósofo Barack Obama, manobrou novamente como um demônio. Putin, que era criticado por jamais atacar o EI e sempre o Exército Sírio Livre, joga uma nova carta: ataca, com uma eficácia desconhecida dos ocidentais, um dos ninhos da organização. Ao mesmo tempo consolida seu aliado Assad no momento em que se iniciam, sem dúvida, as reais negociações sobre a guerra civil na Síria.

Mas a retomada de Palmyra é estrategicamente crucial? Os “analistas” (que praga, esses analistas), explicam que Palmyra não equivale a uma Raqqa, também na Síria, tampouco a Mossul, no Iraque.

Não vou me pronunciar sobre esse assunto, pois em termos de estratégia médio-oriental não sou melhor do que esse exército de “analistas”. Mas estou convencido de que a reconquista de Palmyra tem um peso psicológico enorme. A cidade faz parte da história do mundo. Perdida em seu deserto imaculado em meio a monumentos sublimes que remontam ao início da nossa era, sua queda no ano passado e sua destruição pelos bandidos do EI provocaram um estremecimento de horror.

Às suas façanhas militares ou religiosas, o EI acrescentou essa preciosidade. Seus guerreiros saquearam dois templos exemplares dedicados a divindades fenícias: Baal-Shamin e Bel.

Palmyra era também a capital da rainha Zenóbia que, não obstante o nome de “teatro de variedades”, foi uma das grandes protagonistas da História. Não decidiu ela, no século 3.º d.C., enfrentar o imperador romano Aurélio? Não retomou de Roma a cidade de Sirte, o que lhe permitiu assumir o nome de Augusta, a rainha? E ao mesmo tempo, suas tropas estavam presentes em toda a região, até Ancara, na Turquia.

A restauração de Palmyra exigirá ao menos cinco anos e algumas estruturas e colunas desapareceram para sempre. Pelo menos as outras serão arrancadas das areias e do silêncio, que os integrantes do EI desejavam com tanto entusiasmo, como desejam o desaparecimento de uma grande parte da humanidade.

Se ouvirmos o rumor da história vamos descobrir que todos os crimes cometidos nas guerras contra as pedras, os livros e as bibliotecas são sempre prelúdios de genocídios. A dignidade da história é também uma corrida contra aqueles que, tocha na mão, sonham com o nada, com as chamas e com a morte. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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