Presidente confia em Chávez, talvez contra ele próprio e o país

CENÁRIO: William Neuman / NYT

O Estado de S.Paulo

11 Março 2015 | 02h00

Ele denuncia conspirações e complôs dos que querem matá-lo. Diz que dorme com os dois olhos abertos. Poucos venezuelanos sabem onde ele mora. Mas, apesar dos perigos, o presidente Nicolás Maduro afirma que não tem medo de ninguém; ninguém poderá enganá-lo ou impedir que cumpra a missão que o "eterno comandante Chávez" lhe confiou "até o fim da caminhada, agora e para sempre".

Maduro chegou ao poder tentando imitar seu carismático predecessor e mentor, Hugo Chávez, praticamente de todas as maneiras: no andar, no vestir, em suas invectivas contra o imperialismo americano. Agora, dois anos depois da morte de Chávez, com o país afundando cada vez mais numa crise econômica, o que outrora era a maior vantagem de Maduro - a absoluta lealdade ao líder morto - pode se tornar seu maior prejuízo.

Evitando sair do curso do seu mentor, Maduro, que repete o nome de Chávez como mantra e se denomina filho dele, aprofundou medidas que, segundo os economistas, contribuíram para problemas econômicos, como recessão, inflação galopante e escassez crônica de itens de primeira necessidade.

"Maduro tem um destino trágico", disse Alberto Barrera, colunista de jornal. Na sua opinião, ele precisa culpar os EUA e outros inimigos pelos problemas do país pois, de outro modo, teria de reconhecer que o legado de Chávez está equivocado. "Maduro sabe que deve enfrentar uma enorme crise, mas aceitá-la e reconhecê-la equivaleria a reconhecer que Chávez e a revolução fracassaram."

Embora Maduro se atenha ao legado de Chávez em assuntos econômicos - como os controles de preços e a propriedade das maiores companhias que estagnaram e são mal administradas, mas continuam nas mãos do governo - grande parte dos venezuelanos afirma que é possível que ele tenha superado Chávez em um ponto: em seus ataques à oposição.

Depois de enviar tropas para reprimir os protestos no ano passado, Maduro prendeu uma série de políticos importantes. Chávez também procurava intimidar a oposição e mandou para o exílio alguns políticos que se opunham a ele, ameaçando prendê-los.

Maduro, um civil sem formação militar, encheu seu governo de oficiais. Escolhido a dedo por Chávez, quando já sofria de câncer, como seu sucessor, Maduro venceu as eleições presidenciais por estreita margem em 2013. Mas, para muitos, ainda parece preso à sombra de Chávez./ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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