AFP PHOTO / SAUL LOEB
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Presidente entendeu mal a história da imigração nos EUA

Por seu padrão, os antepassados da maioria dos americanos – incluindo os dele – poderiam muito bem ter sido excluídos

Karen Tumulty / WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

13 Janeiro 2018 | 05h00

Há muito mais em relação à última polêmica causada pelo presidente Donald Trump do que a linguagem vulgar e implicitamente racista que ele usou para estabelecer uma distinção entre imigrantes desejáveis e indesejáveis. A escolha de palavras também revelou uma verdade mais profunda sobre como o presidente vê – e interpreta mal – o relacionamento dos EUA com seus imigrantes.

Trump afirma querer um “sistema de imigração com base no mérito e pessoas que ajudarão a levar o país ao próximo nível”. Mas o presidente não falou sobre as qualificações das pessoas que procura trazer – que sejam cientistas, engenheiros, médicos. Em vez disso, na quinta-feira, ele se concentrou em suas origens – dando preferência a lugares como Noruega, em vez de “países de merda”.

Por seu padrão, os antepassados da maioria dos americanos – incluindo os dele – poderiam muito bem ter sido excluídos. São as dificuldades que tradicionalmente levam as pessoas a buscar oportunidades em outros lugares. “São as pessoas que têm motivação, impulso e incentivo para mudar suas circunstâncias, as que correm os riscos de sair de seus países.

Isso tende a ser um conjunto muito positivo de características pessoais para um país que é acolhedor”, disse Doris Meissner, ex-comissária do Serviço de Imigração e Naturalização dos EUA no governo de Bill Clinton, que agora é membro do Instituto para Política de Migração. “Nunca ouvi nada como a ideia de que, se você é de um país fracassado, não pode ter sucesso como imigrante”, disse Meissner.

As palavras de Trump, com suas conotações raciais, também sugerem que ele quer retornar ao que passou a ser considerado um dos mais vergonhosos e xenófobos períodos da política de imigração. Em 1924, foi aprovado um conjunto de leis que estabeleciam cotas e limitavam o número de pessoas admitidas nos EUA, com base no país de onde vinham, com a meta de preservar a homogeneidade étnica dos EUA.

“A premissa das cotas de origem nacional era a de que alguns países produzem bons imigrantes e outros produzem maus imigrantes”, disse o correspondente da Rede Pública Nacional de Rádio, Tom Gjelten, autor do livro A Nation of Nations: A Great American Immigration Story (Uma Nação de Nações: Uma Grande História da Imigração Americana, em tradução livre).

“Na verdade, havia estudos ‘científicos’ com a pretensão de classificar os países segundo a qualidade e as características de seu povo, e as cotas foram elaboradas, em parte, com base no testemunho da opinião de ‘especialistas’”, disse Gjelten.

Essas conclusões pseudocientíficas produziram um sistema que favorecia países predominantemente brancos. A Noruega recebeu autorização para enviar 6.500 pessoas por ano, enquanto o continente africano só tinha permissão para 1.200.

Esse sistema permaneceu em vigor até 1965, quando Lyndon Johnson convenceu o Congresso a substituir as cotas nacionais com preferência pela preservação de famílias e atrair mão de obra qualificada. Permitir que os imigrantes tragam parentes é o que Trump e outros republicanos agora se referem como “migração em cadeia”, algo que eles querem acabar. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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