Pavel Golovkin/Pool/EFE
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EUA acusam Rússia de encobrir ataque químico; Putin vê farsa contra Assad

Secretário de Estado americano chega a Moscou, após bombardeio ordenado pela Casa Branca contra uma base aérea síria; crise reverte rota de reaproximação com o Kremlin

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2017 | 13h56

O secretário de Estado americano, Rex Tillerson, chegou nesta terça-feira à Rússia para a primeira visita de um integrante do governo Trump ao país em meio a uma escalada verbal entre os dois governos. A Casa Branca acusou Moscou de tentar encobrir o ataque químico que matou quase 90 pessoas na Síria há uma semana, enquanto Vladimir Putin disse que a ação foi fabricada para justificar o bombardeio dos EUA a uma base aérea. 

Antes de embarcar, Tillerson disse que a Rússia deve decidir se quer ficar ao lado dos EUA ou de Síria, Irã e Hezbollah. “Essa é uma aliança de longo prazo que atende aos interesses russos ou a Rússia prefere se realinhar com os EUA, com outros países ocidentais e países do Oriente Médio que estão tentando resolver a crise síria?”, perguntou em entrevista na Itália, depois de participar de reunião de chanceles do G-7. Logo depois da entrevista, a Rússia anunciou um encontro entre o chanceler do país e ministros das Relações Exteriores da Síria e do Irã no fim desta semana em Moscou.  

A declaração final do encontro do G-7 censurou Assad e manifestou apoio à ação militar dos EUA, descrita como uma resposta “calibrada” e “limitada” a um “crime de guerra”. Mas Tillerson e o Reino Unido não conseguiram convencer os demais integrantes do grupo a aprovar novas sanções à Rússia por seu apoio ao governo sírio, o que enfraqueceu a posição do secretário de Estado americano perante Moscou.

Seu antecessor no cargo, John Kerry, tentou durante anos convencer os russos a abandonar Assad e participar de negociações diplomáticas para uma transição na Síria.

O senador Lindsey Graham, um dos falcões do Partido Republicano, disse que Tillerson é “ingênuo” se acredita que a Rússia poderá se realinhar com os EUA na busca de solução para a guerra civil síria, na qual 400 mil pessoas morreram nos últimos seis anos.

Tillerson se encontrará nesta quarta-feira com o chanceler russo, Serguei Lavrov, visto como um dos mais experientes e sagazes diplomatas do mundo. Nesta terça-feira, o Ministério das Relações Exteriores russo divulgou nota na qual expressa disposição para conversas “produtivas”, mas ressalta que a relação EUA-Rússia está em seu pior momento desde o fim da Guerra Fria.

 

Havia a expectativa em Moscou de que Donald Trump se aproximaria de Putin, a quem elogiou de maneira recorrente durante a campanha. Mas o ataque químico de terça-feira passada parece ter mudado o cálculo do presidente americano não apenas em relação à Síria, mas também à Rússia.

Em outro sinal de distanciamento, Trump formalizou ontem a concordância dos EUA com o ingresso de Montenegro na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), movimento que enfrenta ferrenha oposição de Moscou.

Enquanto Tillerson estiver na Rússia nesta quarta-feira, Trump dará uma entrevista coletiva em Washington ao lado de Jens Stoltenberg, secretário-geral da Otan, cuja eficácia ele questionou durante a campanha, ao mesmo tempo em que colocou em dúvida o compromisso dos EUA com a defesa de aliados europeus diante de uma eventual agressão russa.

O ministro da Defesa americano, James Mattis, disse nesta terça-feira não ter dúvida de que Assad realizou o ataque químico. “Nós já vimos isso”, afirmou Putin. “Isso me recorda os eventos de 2003, quando enviados dos EUA no Conselho de Segurança apresentaram o que eles disseram que eram armas químicas encontradas no Iraque.”

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