AFP PHOTO / DAVID MCNEW
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Presos ajudam a combater incêndio na Califórnia por US$ 1 a hora

Detentos condenados por crimes não violentos podem participar do programa, que existe desde 1946

O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2017 | 17h18

CALIFÓRNIA - Alejandro Rangel acaba de recuperar a liberdade e quer continuar o ofício que tinha na prisão: bombeiro florestal. Ele integrou, por mais de dois anos, uma das 200 equipes de bombeiros-detentos que no verão e no outono passam mais tempo combatendo as chamas nas florestas da Califórnia do que atrás das grades. 

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Essa semana, cerca de 550 presidiários foram enviados à região vinícola da Califórnia, onde fortes incêndios se propagam de forma descontrolada. Mais de 30 pessoas morreram, milhares precisaram deixar suas casas e bairros inteiros foram destruídos.

Os detentos são bombeiros como qualquer outro enquanto estão ajudando no combate às chamas. Não há algemas, correntes, nem agentes presentes. O que os diferencia dos demais é o uniforme laranja e a palavra "detento" estampada em uma das pernas da calça, além do valor que recebem.

Por arriscar a vida na linha de fogo, eles ganham US$ 1 por hora. Bombeiros profissionais recebem no mínimo US$ 17,70 por hora. Os detentos cortam árvores com serras elétricas e cavam canais com picaretas e arados no pasto, em volta do fogo, para contê-lo.

Gayle McLaughlin, que aspira ao posto de vice-governadora da Califórnia, condena o programa: "Não importa como queiram disfarçá-lo, ter gente trabalhando por quase nada é trabalho escravo e isso não é aceitável".

Mas os presidiários negam se sentir explorados, muito menos escravos, por fazer o trabalho a um salário tão baixo, que é, no entanto, o maior dentro do sistema de prisão e inclui US$ 2 por cada dia que não estão combatendo o fogo.

O sonho de Alejandro, de 25 anos, é trabalhar como operador de motosserra. "Mas o que me derem eu faço, quero entrar em qualquer corpo de bombeiros na Califórnia", disse dias antes de ser solto, durante um exercício de treinamento na prisão Oak Glen, em Yucaipa, cerca de 140 km ao leste de Los Angeles.

Rotina.

Trabalho em equipe, disciplina, reabilitação são palavras que se repetem entre os reclusos sob a vigilância atenta de um guarda carcerário. 

"É um trabalho muito duro por pouco dinheiro, mas te ajuda a construir caráter", disse Alejandro, que este ano ganhou US$ 1.200. Calcula-se que o Estado economiza US$ 124 milhões por ano com o programa, que existe desde 1946 e esse ano acabou com dois reclusos mortos na linha de fogo.

Presidiários de segurança mínima, condenados por delitos não violentos, podem participar deste programa, que é voluntário dado o compromisso e o risco que supõe. A maioria destes homens é jovem e está na prisão por narcotráfico ou furto.

Alejandro foi condenado a oito anos por roubar uma casa em sua cidade natal, San Fernando, vizinha de Los Angeles. Ele passou os últimos dois em Oak Glen, que não se parece muito com uma prisão comum: não há celas, conta com jardins. Tem até mesmo uma academia com pesos, proibidos em outras instituições. Muitos réus elogiam a qualidade de vida proporcionada pelo local.

Ser bombeiro "mudou a minha vida", disse Alejandro, filho de mexicanos. "Quando cheguei, não tinha nenhuma experiência, agora posso trabalhar em equipe, ajudar outras pessoas. Esta é a minha carreira".

O caminhão em que os reclusos viajam não tem escada ou mangueira. É um ônibus vermelho com grades nas janelas. Na cabine do motorista, um bombeiro profissional fica separado do resto do grupo.

Durante a temporada de incêndios, o veículo é praticamente a casa deles. De Yucaipa podem viajar por toda a Califórnia para apoiar o combate aos focos. Só no ano passado percorreram cerca de 16. mil km.

Faltam seis meses em Oak Glen para Derrick Lovell, 25 anos, e seu plano também é se juntar aos bombeiros florestais. "Minha mãe está orgulhosa, me disse 'eu sabia que você ia ser bombeiro, e você conseguiu, ainda que pelo caminho mais duro'", lembrou, emocionado.

"É a primeira vez que minha família está orgulhosa de mim", contou Travis Reeder, 23 anos, preso por vender drogas, que desmaiou em seu segundo dia de trabalho por desidratação. Ele também aposta neste ofício. / AFP

 

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