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'Principal desafio será a questão territorial'

O Estado de S.Paulo

19 Junho 2014 | 02h 04

Para especialista, novo rei da Espanha terá de mediar diálogo com movimentos separatistas, em especial na Catalunha

A crise econômica e institucional que aflige a Espanha ajudou, de fato, a pressionar a monarquia e a abalar a imagem do reinado de Juan Carlos. Mas, na visão do doutor em ciência política Javier Ruiz, reconquistar popularidade não é o maior desafio do novo rei. Para o professor da Universidade Carlos III, de Madri, Felipe VI terá como grande missão intermediar o diálogo com os movimentos separatistas, em especial na Catalunha, e enfrentar o problema territorial do país, como afirmou ao Estado.

Juan Carlos deixa a chefia de Estado depois de 38 anos. Qual análise o sr. faz do reinado?

Juan Carlos foi a pessoa que se encarregou de colocar em marcha todo o processo de democratização na Espanha. O sistema político que o precedeu não poderia durar mais tempo, nem pôr em prática esse processo de abertura. Juan Carlos desempenhou muito corretamente seu poder sob um Estado parlamentar. Somente nos últimos anos ele abalou sua imagem, não tanto pelas caçadas aos elefantes, mas pelos casos de corrupção envolvendo sua filha e seu genro.

A monarquia sob o comando de Juan Carlos chegou ao seu último dia com uma imagem marcada pela corrupção e pelos escândalos. É uma imagem justa?

Não creio que Juan Carlos deixará uma má imagem. O que aconteceu nesses últimos anos é que ficou claro que a monarquia não é algo sagrado, não é intocável pela corrupção. Mas não significa que haja uma má imagem. Se não houvesse essa crise econômica e institucional, talvez nem mesmo esse caso de corrupção na família real seria tão importante. A imagem que ficará de Juan Carlos é a do homem que colaborou para a democratização e enfrentou o golpe de Estado de 1981. Na Espanha, houve reis muito ruins. Juan Carlos não foi um deles.

Quais serão os maiores desafios de Felipe?

O principal desafio de Felipe não tem a ver com a monarquia em si, mas com a relação com a Catalunha e a questão territorial. Esse é o grande problema a resolver. Não é uma missão para o chefe de Estado, e sim para o presidente de governo. Mas o rei tem poderes diplomáticos, representativos, tem um elemento moderador que deve fazê-lo buscar o papel de mediador para que as partes resolvam o problema. Felipe tem consciência do problema territorial. Se não a tivesse, não seria rei.

Apesar da transição, muitos espanhóis continuam contestando a monarquia.

Sempre houve contestação por parte dos republicanos na Espanha. A diferença é que quando Juan Carlos chegou ao trono eles não podiam contestar, pois vivíamos uma ditadura. Hoje, os republicanos aparecem muito. É uma situação paradoxal pois, na verdade, a monarquia não tem sentido em nosso sistema contemporâneo de valores. No entanto, ao mesmo tempo, quando os espanhóis são questionados sobre a necessidade de eleger um presidente da república, não existe essa disposição. Os espanhóis querem alguém que tenha sido formado para liderar o Estado. / A. N.

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