REUTERS/El Comercio
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Prisão de Humala eleva pressão sobre líderes latinos ligados à Odebrecht

Independência da Justiça na investigação de ex-presidentes e autoridades relacionados ao esquema de pagamento de propinas é um teste para a estabilidade democrática, avaliam especialistas; analista argentino alerta para risco de novos Berlusconis

Luiz Raatz , O Estado de S.Paulo

15 Julho 2017 | 05h00

A prisão do ex-presidente peruano Ollanta Humala e de sua mulher, Nadine Heredia, na noite de quinta-feira, ampliou a pressão sobre líderes latino-americanos envolvidos com casos de corrupção ligados à Odebrecht. Investigações em curso atingem as cúpulas dos governos de Colômbia, Peru, Equador e Venezuela, e analistas alertam para riscos institucionais, políticos e econômicos no médio e no longo prazo. 

Humala foi o primeiro ex-presidente da região a ir para a cadeia em razão do acordo de delação premiada fechado por Marcelo Odebrecht no âmbito da Operação Lava Jato. Outro ex-presidente peruano, Alejandro Toledo, também tem contra si um mandado de prisão, mas está foragido. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi condenado na primeira instância a 9 anos e 6 meses de prisão, em um caso ligado à construtora OAS, e responde ao processo em liberdade. 

Analistas de seis países do continente concordam em retratar os casos de corrupção envolvendo a empresa como parte de um fenômeno sistêmico que, se não for adequadamente tratado pela Justiça, ameaça as próprias instituições democráticas da região. “Se as instituições não evoluírem, como mostra o caso italiano, esse escândalo pode debilitar e muito o sistema político”, disse ao Estado o consultor político argentino Sergio Berensztein. “Esquemas de corrupção acabaram financiando o presidencialismo de coalizão no continente. Se as instituições não melhorarem, corremos o risco de ter novos Berlusconis.”

A cientista política Adriana Urrutia, da PUC do Peru, ressalta que essa melhora é necessária principalmente dentro do próprio Judiciário. “O Estado latino-americano foi sequestrado por uma rede privada corrupta”, afirmou. “O caso Odebrecht poderia ser um divisor de águas no continente. Havia uma oportunidade de falar de Justiça seriamente, mas o caso peruano mostra que a aplicação dela não tem sido equânime.”

Cientista político colombiano e professor da Universidade de la Sabana, Juan David Cárdenas Ruiz explica que os casos impactam o futuro eleitoral desses países. “Os temas corrupção e transparência tornam-se eixos principais das próximas campanhas.” 

Cárdenas ressalta que, para a corrupção ser tratada de forma séria pelos partidos, é preciso haver punição adequada a todos os envolvidos. “Na Colômbia, historicamente, poucos casos de corrupção tiveram consequências políticas, por exemplo.”

Na Colômbia, a Odebrecht declarou ter pago US$11 milhões em propina, com US$ 1 milhão para a campanha do presidente Juan Manuel Santos, e US$ 1,6 milhão para a de seu rival, o uribista Óscar Iván Zuluaga.

“É um câncer que se espalhou pelo continente e ameaça o sistema político”, conclui o venezuelano Luis Vicente León, do Datanálisis. Na Venezuela, a procuradora-geral, Luisa Ortega Díaz, que rompeu com o presidente Nicolás Maduro, indiciou a mulher e a sogra do ex-ministro chavista Haiman El Trudi. O chavismo, no entanto, usa seu controle sobre o Judiciário para barrar as investigações do Ministério Público. 

Economia. A economista equatoriana Natalia Sierra vê questões estruturais no avanço da corrupção. “Graças à poupança criada com a venda de commodities, o Estado era o grande cliente dessas construtoras, que foram ficando cada vez maiores. Em muitos países, o Executivo concentrou poder e tornou mais fácil para a corrupção se alastrar”, avalia. “A proximidade ideológica entre o Brasil e países como o Equador facilitou essa relação.” 

No Equador, as suspeitas recaem sobre o vice-presidente Jorge Glas. O tio dele é investigado pelo Ministério Público, sob suspeita de ser um laranja. No total, a Odebrecht pagou US$ 33 milhões em propinias para contratos no país. Há poucos meses no cargo, o presidente Lenín Moreno adotou a luta contra corrupção como bandeira e afastou-se de seu padrinho político, o ex-presidente Rafael Correa.

Para o cientista político chileno Patricio Navia, empresas brasileiras devem ser amplamente afetadas em futuras disputas na região em razão da má reputação provocada pelos escândalos. “Vai haver um efeito comercial, especialmente nos projetos de grandes investimentos, no qual essas empresas podem ter dificuldade”, avalia. / COM MURILLO FERRARI E FERNANDA SIMAS

 

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‘Kuczynski pode cair se perder o foro’

Há um discurso para retratar o governo Humala como o mais corrupto, porque a gestão dele é a mais recente, com uma aprovação muito baixa

Adriana Urrutia*, professora da PUC do Peru, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2017 | 05h00

"Com base nas provas aceitas para deter Ollanta Humala, a Justiça deveria também prender Keiko Fujimori e os ex-presidentes Alejandro Toledo e Alan García. Há um discurso para retratar o governo Humala como o mais corrupto, porque a gestão dele é a mais recente, com uma aprovação muito baixa. Além disso, a mulher dele também é muito impopular. 

Com isso, a direita deve ganhar força no Peru nos próximos meses. O fujimorismo controla o Parlamento. O Judiciário tem muitos simpatizantes do partido de Alan García (Apra), o ex-presidente com mais indícios de culpa no caso da Odebrecht. O presidente Pedro Pablo Kuczynski é refém dos dois. Se o Congresso alterar as leis que dão foro privilegiado ao presidente, ele também pode cair." 

*Depoimento ao repórter Luiz Raatz 

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‘Na Venezuela, é impossível a cúpula ir presa’

O chavismo controla todas as instituições, salvo o Ministério Público

Luis Vicente León*, presidente do Instituto Datanálisis, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2017 | 05h00

"O caso Odebrecht está na mira da procuradora-geral Luisa Ortega Díaz para complicar o governo de Nicolás Maduro, mas é preciso lembrar que a investigação depende da permanência dela no cargo, ameaçada pela Justiça leal ao chavismo e pela tentativa de mudar a Constituição.

 

Na Venezuela, é praticamente impossível que um presidente ou um membro da cúpula do governo vá preso, como em outros países. O chavismo controla todas as instituições, salvo o Ministério Público.

Sem dúvida, o caso colabora com a batalha da oposição contra o governo. A procuradora e a MUD podem usar isso como um símbolo. Mas o impacto do caso não é o mesmo de outros países, pelas circunstâncias: protestos diários, eleições canceladas, crise econômica e política."

*Depoimento ao repórter Luiz Raatz 

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Investigações estão atrasadas na Argentina

Cristina Kirchner tem muitos problemas na Justiça, não só vinculados à Odebrecht

Sergio Berensztein*, consultor político , O Estado de S.Paulo

15 Julho 2017 | 05h00

"Na Argentina, as investigações estão muito atrasadas. Cristina Kirchner tem muitos problemas na Justiça, não só vinculados à Odebrecht. Seu eleitorado, porém, é tão fiel que não se importa com as denúncias. Cristina disputará uma vaga no Senado, em outubro, e há risco de que ela, caso eleita, seja cassada ou perca a imunidade parlamentar. 

Para o presidente Mauricio Macri, as coisas são um pouco diferentes. A maioria das obras realizadas quando ele era prefeito de Buenos Aires foi financiada pelo governo federal. No entanto, a empresa do pai dele teve negócios com a Odebrecht. Não há registros de que a empreiteira tenha se envolvido com obras durante sua gestão na capital, mas não se sabe ainda se houve doações à campanha dele de olho em projetos futuros." 

*Depoimento ao repórter Luiz Raatz 

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Chile suspeita de casos ainda não revelados

Ninguém da OAS envolveu Bachelet e sua campanha no caso, mas se suspeita de que haja relações que ainda não foram reveladas pelas delações no Brasil

Patricio Navia, cientista político da Universidade de Nova York*, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2017 | 05h00

"No Chile, não há muita discussão sobre as denúncias da Lava Jato, que aqui envolvem a (construtora brasileira) OAS.  Apesar de a empresa ter um contrato importante para construir uma ponte no sul do país, que liga o continente a uma ilha, ele foi assinado pelo governo anterior, de Sebastián Piñera, e não no atual, de Michelle Bachelet. 

Então, formalmente, ninguém da OAS envolveu Bachelet e sua campanha no caso, mas se suspeita de que haja relações que ainda não foram reveladas pelas delações no Brasil. De qualquer forma, as investigações causaram um terremoto na política de toda a região e mostraram que são necessários melhores mecanismos de controle e mais transparência nos contratos públicos e no financiamento das campanhas."

*Ao repórter Murillo Ferrari

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‘Financiamento atinge imagem de Santos’

Santos continua tendo maioria parlamentar e forte influência sobre as instituições judiciais

Juan Cárdenas Ruiz, professor da Universidade de la Sabana *, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2017 | 05h00

"A revelação do possível financiamento por parte da Odebrecht à campanha do presidente Juan Manuel Santos tem um efeito direto sobre sua popularidade e imagem na opinião pública. 

Mas, em termos institucionais, Santos continua tendo maioria parlamentar e forte influência sobre as instituições judiciais. Se nada for comprovado, tudo acabará sendo um escândalo passageiro, sem maior impacto político. 

No caso da oposição, já se observam os efeitos, com uma possível divisão no Centro Democrático após as revelações sobre o financiamento da Odebrecht à campanha de Óscar Zuluaga. As relações de força dentro do partido devem mudar. É um golpe forte na agenda política 'anticorrupção'. O impacto depende de como as campanhas manterão o tema vivo."

* À repórter Fernanda Simas

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Escândalo afeta vice-presidente no Equador

Presidente Lenin Moreno prometeu combater a corrupção durante a campanha, mas agora diz que não esperava encontrar esse labirinto

Natalia Sierra, professora da PUC do Equador*, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2017 | 05h00

"O presidente Lenín Moreno criou uma comissão anticorrupção, mas muitos membros dela fazem parte do governo. A sociedade civil tem feito denúncias por meio de uma comissão paralela, mas os casos nem sempre avançam. Moreno prometeu combater a corrupção durante a campanha, mas agora diz que não esperava encontrar esse labirinto. 

Todas as denúncias vinculadas à Odebrecht apontam para seu vice-presidente, Jorge Glas. A oposição quer o julgamento político dele, mas isso depende da Assembleia Nacional, onde o governo tem maioria, e do Judiciário, quase todo nomeado por Rafael Correa. Assim, o processo não deve avançar. No momento, Moreno usa o discurso anticorrupção para se fortalecer frente ao ex-presidente Correa. "

* Ao repórter Luiz Raatz

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