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Privilégio de quem tem acesso a CUC se destaca

Vera Rosa - Enviada especial a Havana

08 Fevereiro 2014 | 16h 51

Situação mais tranquila é a dos que têm parentes que estão no exterior, com salário pago em moeda forte, como médicos que vieram para o Brasil

Mãe de um médico que está no Brasil há duas semanas, Gisela Timonera, de 70 anos, não precisa do salário do filho para sobreviver em Havana. Cabeleireira e maquiadora aposentada, ela faz parte de uma classe que desfruta de um padrão de vida melhor e usa pesos conversíveis (CUC).

A confortável casa onde Gisela mora em Miramar, o bairro das embaixadas, é herança de seu avô, Miguel Verano, um corretor de aduana. A foto dele em preto e branco, diante do Capitólio de Havana, está ao lado do retrato colorido de Fidel Castro.

"Acho que o país está melhor, sobretudo para a juventude e a terceira idade, porque a revolução sempre cuidou das crianças. A unificação da moeda vai ser boa para todos e melhorar os negócios. Com uma só moeda se pode ajustar o salário também", disse Gisela.

Embora admita que o salário em Cuba é "um pouco baixo", Gisela afirma não depender dos rendimentos do filho mais velho, Eduardo Timonera - que desembarcou em São Paulo para engrossar o programa Mais Médicos - nem do mais novo, em trabalho na Espanha.

A situação é parecida com a de outros profissionais, como atletas e técnicos especializados, que também têm mais acesso à moeda forte.

Mesmo com as reformas, o preço do supermercado e dos serviços ainda é muito alto para os cubanos. O quilo da carne, por exemplo, custa 9,95 CUC (cerca de R$ 24).

A Cafetería Buena Vista exibe os preços na moeda "fraca". Para comer um queijo quente acompanhado de um refresco, por exemplo, um morador da ilha gasta seis pesos cubanos - cerca de R$ 0,60.

Um dos frequentadores do café é o médico Ignácio González, de 60 anos, que atende na Policlínica, em Playa, bem longe de Miramar - o bairro de Gisela Timonera. González vive numa casa humilde da periferia, onde a paisagem é desbotada.

Tanto González como Gisela, porém, nutrem um sentimento em comum: os dois defendem Fidel e Raúl Castro e lembram que em Cuba a saúde e a educação são gratuitos graças à Revolução de 1959.

"No Brasil, muitos médicos que estão acostumados a viver no ar condicionado não querem ir para o meio da selva passar calor. Isso não existe aqui", provocou o médico González.