Filippo Monteforte / AFP
Filippo Monteforte / AFP

Projeto para isolar prostitutas em Roma enfrenta críticas

Religiosos e moradores questionam ideia da prefeitura de concentrar parte das 12 mil garotas de programa em bairro afastado da cidade

Anthony Faiola , The Washington Post

10 Março 2015 | 18h35

ROMA - A Cidade Eterna vem colidindo com a profissão mais velha do mundo - e as faíscas, como dizem, estão voando. O número de prostitutas aumentou no coração do catolicismo, o que, segundo as autoridades, vai contra a dignidade dos cidadãos romanos.  Como a proibição da venda de sexo numa cidade de pecadores e de santos já fracassou antes, as autoridades municipais pensaram em uma nova estratégia.

O plano é reunir o número crescente de trabalhadoras do sexo num conjunto de ruas reservadas mais desertas - em resumo, uma zona de prostituição escondida. Os defensores da medida alegam que as mulheres poderão atender os clientes longe dos olhos delicados das esposas, avós e crianças. 

Essas zonas de tolerância enfrentam uma forte resistência da Igreja, do governo nacional e das próprias prostitutas, abrindo as cortinas para uma verdadeira ópera italiana centralizada num projeto que, segundo seus críticos, é uma tentativa clássica de varrer “o pecado” para debaixo do tapete. 

Alguns também estão enfurecidos com as caracterizações de gênero implícitas num projeto que, na verdade, pretende segregar as prostitutas das mulheres “respeitáveis” de Roma - e sobretudo em benefício dos homens. Com as prostitutas confinadas a áreas menos habitadas da cidade, maridos, namorados e clientes poderão desfrutar de um maior anonimato.

O confronto trouxe à baila a questão incômoda de uma prostituição crescente num país que, embora já abrigue um certo tipo de machismo, tem muita dificuldade em falar sobre sexo, segundo especialistas. 

“Estou surpreso com a confusão que foi criada”, disse Andrea Santoro, idealizador do projeto e presidente do distrito romano de Eur.

Roma luta com um vício tão antigo quanto a cidade. As trabalhadoras do sexo eram consideradas seres inferiores à época do Império Romano, mesmo com que os clientes tivessem uma alta posição. Alguns afirmam que a situação não mudou muito em três mil anos.

“Ainda existe uma grande hipocrisia em Roma”, disse Eva Cantarella, autora de livros sobre sexo na Roma antiga. “As ruas estão repletas de prostitutas, mas se conversar com um italiano a respeito, ele dirá 'não, isto é horrível. Jamais estive com uma'. Mas alguém está dando trabalho para elas."

Em parte devido à relutância em resolver totalmente o problema, a leis italianas sobre prostituição são vagas e orientadas por uma outra que data de meio século e que proibia os bordéis, mas não deixava clara a legalidade da prostituição nas ruas. Grupos religiosos que trabalham com prostitutas dizem que o problema hoje é crítico, com uma população atual de 12 mil - o dobro em relação ao seu número há dez anos. 

Segundo especialistas os responsáveis por este aumento são as novas gangues criminosas que trazem escravas do sexo da Europa oriental e da África para Roma, como também isto é consequência de um período econômico difícil num grupo de nações europeias, incluindo a Itália. 

Em nenhum lugar a situação é mais terrível como no bairro de Eur, com seus edifícios monolíticos da era fascista ao sul do centro histórico de Roma e local onde as zonas de tolerância passarão a funcionar neste trimestre com base num projeto piloto. 

No bairro, centenas de prostitutas em lingerie e sapatos de salto já oferecem seus serviços bem antes do anoitecer, abordando os clientes perto de parques e calçadas onde jovens namorados, casais de idade e famílias costumam passear ao entardecer.

Numa tarde recente, Paolo Lampariello, diretor de um grupo de cidadãos que apoia as novas zonas, vasculhou atrás dos arbustos e com indignação apontou para as camisinhas e meia-calça usadas.

Nenhum lugar é sagrado. As trabalhadoras do sexo hoje operam nas escadas de uma igreja local e “até mesmo atrás da estátua de Gandhi”, disse Lampariello. E acrescentou que recentemente sua mulher foi obrigada a ver a cena de um cliente obcecado por sexo se expondo na rua uma vez que aparentemente não encontrou nenhuma prostituta disponível na vizinhança.

Temores. Recentemente no bairro de Eur, diante da aproximação de um jornalista muitas prostitutas fugiram, mas aquelas que ficaram, incluindo Nicola, um transexual de 24 anos do Uruguai - mostraram-se unanimemente contra as zonas.

Embora grande parte do debate público se centralize no que fazer com as prostitutas, os grupos de ajuda alegam que quase a metade delas no bairro de Eur são travestis ou transexuais - fato que algumas pessoas têm ainda mais dificuldade para discutir. Embora as mulheres no geral tenham “protetores”, que monitoram seus movimentos de perto, os homens frequentemente trabalham por conta própria e vários insistem que as autoridades estão procurando encrenca no caso de todas as prostituas serem obrigadas a se agrupar num mesmo local.

“Você coloca todas numa pequena zona e a concorrência vai ficar feroz”, disse Nicola. “Estou lhe dizendo, vai ser um rio de sangue. Somos muitos”.

Um representante oficial do governo nacional do primeiro ministro Matteo Renzi, antigo escoteiro e um católico praticante, tentou bloquear o projeto, mas as autoridades locais insistem ter meios legais para levar seu plano em frente.

Críticas. Em editoriais e pronunciamentos, autoridades da Igreja Católica denunciaram vigorosamente o projeto afirmando que a cidade, e a Itália de modo geral, deveriam proibir a prostituição ou pelo menos seguir o caminho adotado por países como a Suécia, ou seja, visar os clientes e não as prostitutas, criminalizando a compra e não a venda de sexo.

Para o reverendo Aldo Buonaiuto, representante de um grupo de ajuda católico que trabalha com prostitutas, a implantação do projeto equivale a legitimar a exploração de mulheres. “Basicamente o que eles querem é que o Estado se torne o proxeneta”, observou com ironia.

Mas para o prefeito de Roma Ignazio Marino os oponentes não entenderam o escopo do problema. Seu predecessor, por exemplo, tentou proibir a prostituição nas ruas como também as “roupas provocativas” usadas pelas prostitutas, ordem que a título de sátira foi chamada de “lei da minissaia”. Ambas as medidas fracassaram espetacularmente porque não havia policiais em número suficiente para fiscalizar as novas regras e as leis nacionais muito imprecisas dificultavam a responsabilização de clientes ou vendedoras de sexo por algum crime de fato.

Citando uma avó que recentemente lhe escreveu depois de ter levado a neta de quatro anos a um parque, quando a menina encontrou e pegou uma “camisinha usada”, Marino disse que um projeto “imperfeito” é melhor do que nada.

“Um grande tumulto irrompeu no país por causa disto, mas temos de fazer alguma coisa. A resposta é não deixar as coisas da maneira como estão”, afirmou. / Tradução de Terezinha Martino 

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