EFE/Mariscal
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Prós e contras de Macri

Presidente impôs medidas racionais, mas preferência pelo consenso pode custar caro nas eleições para o Legislativo

The Economist, O Estado de S. Paulo

07 Abril 2017 | 05h00

Os primeiros sinais de movimentação oposicionista nas ruas vêm num momento delicado para o presidente da Argentina Mauricio Macri, que tenta consertar os estragos causados pelo populismo de Néstor e Cristina Kirchner. Em outubro, a coalizão Cambiemos, que elegeu Macri, enfrentará uma eleição em que estarão em jogo quase metade das cadeiras do Congresso. É grande a probabilidade de que o pleito se torne uma espécie de referendo sobre o governo.

No fundo, o surpreendente é que Macri tenha conseguido preservar sua popularidade – sua aprovação gira em torno de 50%. O país que ele herdou tinha o futuro hipotecado: as reservas internacionais eram insignificantes, uma disputa com os detentores de títulos da dívida argentina fechava as portas dos mercados de crédito e a inflação estava em torno de 30%.

O novo governo não perdeu tempo em eliminar os controles cambiais, desvalorizar o peso e chegar a um acordo com os credores. Também elevou os juros para impedir que a inflação saísse de controle. Em outras áreas, foi mais cauteloso. A precaução é fruto da conjuntura – Macri não tem maioria no Congresso –, mas também de sua preferência pela construção de consensos. A ideia é aliviar os custos sociais da estabilização num país ainda traumatizado pelo colapso econômico de 2001-2002.

Acontece que o gradualismo não é uma panaceia. Captar recursos em dólar para financiar o déficit fiscal traz o risco de nova sobrevalorização do peso. E, apesar de o ministro da Fazenda Nicolas Dujovne dizer que a inflação está caindo e o PIB e o emprego estão em alta, muitos argentinos ainda não sentem os efeitos disso. A deterioração das expectativas acontece num momento em que o governo acumula “erros não forçados”, que vão desde iniciativas banais, como a decisão (depois revogada) de alterar a data de alguns feriados, a medidas mais problemáticas, como a resolução (também revogada) que implicou na baixa contábil da dívida de uma empresa do pai de Macri com o Estado.

Mas nem tudo é cinza no céu de Macri. O economista Mario Blejer, ex-presidente do Banco Central, acredita numa alta de 4% do PIB este ano. Os cortes nos gastos públicos são facilitados pelo excesso de corrupção e desperdício dos governos Kirchner. Os peronistas mostram-se divididos. Macri muito dificilmente conseguirá obter maioria parlamentar em outubro, mas não pode dar a impressão de ter sofrido uma derrota. Isso faria com que seu governo parecesse mero parêntese na tradição populista argentina. A eleição ocorrerá antes que os benefícios proporcionados por políticas mais racionais fiquem claros. Ainda assim, muitos argentinos reconhecem que Macri é a melhor chance que a Argentina tem nas últimas décadas de romper o ciclo vicioso de populismo e declínio. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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