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EFE/Manaure Quintero

Protestos seguem e Maduro confisca fábrica da GM

Empresa encerrará operações na Venezuela e diz que expropriação foi determinada após decisão judicial que considera arbitrária

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O Estado de S.Paulo

20 Abril 2017 | 20h12

CARACAS - Em meio ao recrudescimento dos protestos da oposição na Venezuela, o governo do presidente Nicolás Maduro expropriou na quarta-feira uma fábrica da General Motors. O chavismo não justificou a decisão - a última de uma série de expropriações feitas no último ano. A empresa declarou que encerrará as operações na Venezuela e disse que o confisco foi determinado após uma decisão judicial que considera arbitrária.

A decisão do governo de tomar a empresa - a mais antiga fábrica de automóveis no país, mas que há dois anos estava com a produção interrompida por falta de dólares para importação de peças - ocorreu no mesmo dia de um protesto que reuniu dezenas de milhares de pessoas contra Maduro, no qual três pessoas morreram. Um executivo da empresa disse à Broadcast, o serviço de informações em tempo real do Grupo Estado, que a Justiça do país ordenou à montadora que pagasse US$ 376 milhões a uma de suas concessionárias.

O imbróglio começou em 2000, quando a GM quis retirar a concessão de uma de suas concessionárias, localizada na cidade de Maracaibo, em razão de um desempenho nas vendas abaixo do desejado pela montadora. O ponto de revenda, então, exigiu ser ressarcido pelos veículos que ainda tinha em estoque, dando início a uma disputa judicial.

A unidade, que fica em Valencia e tem capacidade para produzir 100 mil veículos por ano, tinha sua produção voltada para o mercado interno. Segundo o executivo, o encerramento das operações na Venezuela não afeta em nada a filial brasileira. Como os veículos vendidos na Venezuela são diferentes dos vendidos no Brasil, a produção brasileira não poderia abastecer o mercado venezuelano, mesmo que ele voltasse a crescer.

Reação. O Departamento de Estado americano prometeu rever as circunstâncias do caso e afirmou esperar que ele seja resolvido rapidamente. A empresa diz que a ação do governo de Caracas é ilegal, mas não detalhou o que fará com os 2,7 mil empregados da montadora na Venezuela. “Não houve respeito ao devido processo legal”, disse a companhia, em nota. 

Expropriações são comuns no país desde o governo do presidente Hugo Chávez (1999-2013). Com a chegada de Maduro ao poder, a crise de escassez, a falta de moeda forte e a inflação, as expropriações tornaram-se mais corriqueiras. 

Especialistas veem no confisco, por um lado, uma tentativa de Maduro de criar um conflito com o governo americano na esperança de desviar o foco político dos protestos de rua. Por outro lado, seria uma reação de Maduro à “guerra econômica” que ele atribui à oposição. 

“Encaixa-se na ideia de que a resposta do governo à atividade da oposição é aprofundar a revolução (bolivariana)”, disse Phil Gunson, do International Crisis Group. “Muitos no comando, incluindo Maduro, parecem acreditar de verdade que a meta final do chavismo é substituir o capitalismo por um monopólio estatal.”

Desde 2015, a GM só produzia peças suplementares na fábrica de Valencia em razão da falta de dólares para a iniciativa privada. A partir de 2013, quando as reservas em moeda forte do país caíram, Maduro deixou de vender dólares para produtores privados. Em consequência, a produção industrial de bens duráveis e não duráveis entrou em colapso por falta de matéria-prima. 

O governo diz que esse colapso é proposital e passou a acelerar o ritmo de expropriações. No ano passado, a fábrica da multinacional Kimberly-Clark foi confiscada para a produção de fraldas. A administração estatal, no entanto, não alterou o panorama de escassez do produto no país. 

“É um padrão: quando as grandes empresas diminuem sua atividade, porque não conseguem dólares para importar matéria-prima, o governo as acusa de fazer parte da ‘guerra econômica’”, disse David Smilde, do Washington Office on Latin America. “O impasse acaba com a apreensão de seus ativos.”

Ontem, os venezuelanos voltaram às ruas para protestar contra Maduro, em menor número que nos atos de quarta-feira. Um rapaz chegou a protestar nu diante de um tanque da Guarda Nacional Bolivariana, em Caracas, e foi reprimido com gás de pimenta. / AP, Washington Post e ANDRÉ ÍTALO ROCHA 

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