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Putin, Francisco e o patriarca

Presidente russo busca popularidade política com a reunião entre papa e patriarca

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Nina Khruscheva,
O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2016 | 10h14

O tempo que o presidente russo, Vladimir Putin, passou na KGB o ensinou como se beneficiar à custa de outros. Na excelente biografia de Steven Lee Myers, The New Star, o ex-chefe da sucursal do New York Times em Moscou, descreve como, trabalhando na Alemanha Oriental nos últimos anos do comunismo, Putin usou a fraqueza de seus oponentes para promover a causa soviética.

A reunião histórica entre o papa Francisco e o patriarca da Igreja Ortodoxa Russa em Cuba é mais uma ocasião que ele tentará usar em seu benefício. Essa foi a primeira reunião entre um pontífice católico e um patriarca russo desde o Grande Cisma do cristianismo, em 1054, quando divergências teológicas dividiram a fé em dois ramos, ocidental e oriental. Desde então, a Igreja Ortodoxa (em russo, a Pravoslavie, que significa literalmente “o culto correto”) é considerada a única forma certa de cristianismo na Rússia – as outras denominações são rejeitadas por apoiar o individualismo e um respeito insuficiente da alma humana.

Por quase um milênio, a animosidade pareceu insuperável. Nos tempos modernos, foi preciso a ameaça de uma guerra nuclear para surgirem iniciativas com o fim de restaurar o vínculo entre Oriente e Ocidente – mesmo assim, essa aproximação foi conduzida principalmente pelas autoridades seculares da Rússia. Em 1963, o então premiê soviético, Nikita Khruchev, ateu fanático, enviou seu cunhado e assessor Alexei Adzhubei para uma audiência com o então papa João XXIII.

Mas o avanço de fato ocorreu em 1989, quando o primeiro-ministro soviético Mikhail Gorbachev encontrou-se com João Paulo II, papa polonês que passara a década anterior fazendo oposição ao regime totalitário ateu soviético. Após o colapso da União Soviética, as relações continuaram a melhorar, com Boris Yeltsin, o primeiro presidente da Federação Russa, visitando o Vaticano em 1991 e 1998. Objeções feitas pela Igreja Ortodoxa Russa, no entanto, impediram o papa de aceitar convites para visitar Moscou.

As relações entre a Rússia e a Santa Sé assumiram novo significado depois de Putin se tornar presidente. Ao contrário dos soviéticos oficialmente ateus, Putin tem uma relação muito estreita com a Igreja Ortodoxa, defendendo valores sociais conservadores e procurando ampliar a influência russa no exterior.

Em 2007, a Igreja Ortodoxa Russa uniu-se a um ramo dissidente, a Igreja Ortodoxa Russa Fora da Rússia, que havia se separado em protesto contra os fortes vínculos da Igreja Ortodoxa Russa com os bolcheviques. “O retorno da unidade da Igreja é condição crucial para o renascimento da unidade perdida de todo o ‘mundo russo’, que sempre teve a fé ortodoxa como um de seus alicerces’”, declarou Putin em uma cerimônia marcando a ocasião.

A reunião de ontem em Cuba oferece a Putin a oportunidade de se tornar o líder russo que supervisionou o início de um diálogo entre as Igrejas Católica e Ortodoxa. A importância que ele dá a esse evento está refletida na própria improbabilidade.

Putin e Kirill, afinal, foram os líderes da crescente animosidade antiocidental e conduziram a Igreja Ortodoxa Russa na direção do conservadorismo, do nacionalismo e da intolerância. O patriarca – há rumores de que ele próprio teria pertencido à KGB – qualificou a guerra na Síria de “guerra santa”, acrescentando que “hoje, o nosso país talvez seja a força mais ativa no mundo a combater”. Francisco, pelo contrário, não só é claramente um progressista, recusando-se a caluniar os homossexuais, mas tem apelado repetidamente para uma solução pacífica do conflito sírio.

Ao deixar que essa reunião se realize – e não há dúvida de que deu sua aprovação –, Putin busca validação religiosa e popularidade política. O encontro também lhe permitirá, mais uma vez, provocar o Ocidente, indignado que está com a imposição de sanções contra seu país em razão do conflito na Ucrânia, da anexação da Crimeia e as críticas à sua intervenção na Síria.

A realização do encontro em Cuba foi uma estratégia inteligente. Em razão das sanções impostas à Rússia, a Europa era zona proibida. Mas Cuba, que recebeu assistência financeira crucial da União Soviética em troca da lealdade de Fidel Castro, é um lembrete muito forte da reivindicação da Rússia a ter uma relevância global.

Os dirigentes da ilha nunca denunciaram o Cristianismo de modo tão absoluto quanto os soviéticos e nos últimos 20 anos o país recebeu três visitas papais: João Paulo II em 1998, Bento XVI em 2012 e Francisco em 2015. Raúl Castro, irmão e sucessor de Fidel, já havia convidado o patriarca russo a uma visita, para ver em primeira mão que comunismo e cristianismo são compatíveis.

Para Putin, não poderia haver melhor ocasião para esse encontro. Os preços do petróleo despencando, o declínio espetacular do valor do rublo, as sanções em curso e as imagens sangrentas que chegam da Síria o deixam desesperado por notícias positivas. E que melhor oportunidade de foto do que o papa ao lado do seu mais próximo aliado político e espiritual? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*NINA KHRUSCHEVA É PROFESSORA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS E DIRETORA DA ÁREA DE ASSUNTOS ACADÊMICOS NA THE NEW SCHOOL

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