REUTERS/Eduardo Munoz
REUTERS/Eduardo Munoz

Quando a vida de um negro deixa de ter importância

O problema é que assassinatos de negros acontecem com tanta frequência que resignação e apatia se tornam a resposta

Roxane Gay / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2016 | 05h00

Há muitos anos, vemos em vídeos o que “proteger e servir” significa quando se trata da vida de negros – lembremo-nos de Tamir Rice, Walter Scott, Eric Garner, Kajieme Powell, para ficar só em alguns. Nenhum de nós teria imaginado como minúsculas câmeras nos permitiriam ver injustiças cometidas por policiais, principalmente contra negros. E também não imaginaríamos que vídeos desse tipo não se traduziriam em justiça. 

Há um novo nome na lista – Alton Sterling, morto por policiais em Baton Rouge, Louisiana. Ele vendia CDs diante de uma loja de conveniência na manhã de terça-feira quando foi atingido por uma arma de choque e imobilizado por dois policiais que, segundo a polícia, respondiam a uma chamada. Levou vários tiros no peito e nas costas. Sua morte teve características de execução.

Sterling sobrevive na memória da família, que sempre saberá que ele foi executado. As câmeras que os policiais usavam nos uniformes “soltaram-se”, segundo o porta-voz da polícia, L’Jean McKneely. Assim, não sabemos quanto foi filmado. A polícia tem o vídeo da câmera de segurança da loja de conveniência, que não foi até agora liberado. McKneely disse que os policiais não haviam sido interrogados porque “damos um dia para irem para casa e pensarem a respeito”.

Já faz quase dois anos que Michael Brown foi morto em Ferguson, Missouri. Enquanto isso, policiais continuam a agir impunemente contra negros. Ao ouvir sobre a morte de Sterling, me senti cansada. Não tive palavras, pois não sei o que mais pode ser dito. Vi o vídeo feito com celular por um transeunte, vi Sterling ser morto, mesmo não querendo ver, mesmo que isso me tornasse uma espécie de cúmplice no espetáculo da morte de um negro. 

Ver um ser humano ser morto a tiros é grotesco. O vídeo da morte de Sterling nos permite ver o que aconteceu, mas não trará justiça. Não sei para aonde vamos. Nós que reconhecemos a injustiça, não somos o problema. O problema são os encarregados da lei, militarizados e indiferentes à vida de negros.

O problema são policiais que veem os negros como criminosos, não como seres humanos. O problema é um Judiciário que raramente processa ou condena policiais que matam pessoas inocentes. O problema é que isso acontece com tanta frequência que resignação e apatia se tornam a resposta. É assustador ver o que estamos enfrentando, viver num mundo em que tantas pessoas têm o dedo no gatilho contra negros. Não sei mais o que fazer. Não sei mais se minha vida importa, quando há tantas evidências em contrário. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É PROFESSORA NA PURDUE UNIVERSITY 

 

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