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Quando os dois extremos concordam

Crescimento da economia americana seria mais rápido se houvesse reformas no setor de tributos e regulamentação

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O Estado de S. Paulo

14 Março 2016 | 03h00

A energia que alimenta a campanha presidencial nos Estados Unidos – de ambos os lados do espectro político – parece nascer de um profundo desespero diante da situação da economia americana. Em relação a essa questão, Bernie Sanders e Donald Trump têm uma mensagem surpreendentemente semelhante: a economia americana está falida. Mas será que esta análise está correta? 

A economia dos Estados Unidos criou 14 milhões de empregos no setor privado desde 2010. O desemprego caiu para menos de 5% e o número de pessoas que solicitam salário desemprego registrou a maior queda no ano passado. 

A média industrial Dow Jones mais que dobrou no governo de Barack Obama, enquanto as bolsas apresentam um desempenho mais vigoroso do que o registrado no mandato de qualquer outro presidente americano. Os mercados da habitação e da construção estão sólidos, as vendas de automóveis crescem continuamente – e até os salários começam a subir. 

O dilema fundamental dos americano é sobre os ganhos proporcionados pelo crescimento, a baixa inflação e a produtividade do setor tecnológico estarem disseminados por toda a população. Todos nós ganhamos com o custo menor dos produtos e com uma extraordinária tecnologia. Mas os custos de tudo isso – empregos perdidos, corte de salários – estão concentrados em um grupo menor de pessoas. São as vozes destas, compreensivelmente revoltadas, que ouvimos durante a campanha nestes dias. 

A atual recuperação tem sido muito menos robusta do que as anteriores. No entanto, muitos economistas previram esse cenário desde o começo, destacando que a desaceleração causada por uma crise financeira afeta a confiança dos consumidores e das empresas. 

A medida mais relevante é seguramente como os Estados Unidos saíram da recessão em comparação com as principais economias mundiais. Este ano, a economia americana provavelmente crescerá mais rapidamente do que a da zona do euro e quase três vezes mais do que a do Japão. 

Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Banco Central americano) começou a elevar os juros porque teme que o crescimento produza inflação, enquanto quase todos os principais bancos centrais pensam em cortar os juros para tentar desesperadamente reanimar a economia dos respectivos países. 

Na campanha republicana, uma das denúncias diz que o governo Obama estrangulou a economia com novas regulamentações. O elemento central desta denúncia é seguramente a Lei Dodd-Frank, um vasto e complexo conjunto de regulamentações de difícil compreensão que hoje monitoram o setor financeiro. 

Entretanto, como o jornal Financial Times noticiou nesta semana, os cinco principais bancos de investimento dos Estados Unidos captaram mais do que o dobro dos recursos em comparação aos seus equivalentes na Europa, superando “seus rivais europeus em quase todos os parâmetros financeiros no ano passado”. Seus lucros cumulativos antes dos impostos chegaram a US$ 33,5 bilhões, oito vezes os dos bancos europeus. “É a mais recente comprovação do crescente predomínio global dos bancos de investimento americanos”, conclui o Financial Times

O argumento segundo o qual a economia cresceria mais rapidamente se houvesse significativas reformas tributárias e da área da regulamentação é certamente plausível, em teoria. Ocorre que os Estados Unidos são uma economia muito competitiva. Um relatório recente elaborado pela UBS para o Fórum Econômico Mundial identificou os países mais aptos a se beneficiarem com a “quarta revolução industrial” – e os Estados Unidos ficaram em quinto lugar. 

É verdade que os Estados Unidos têm problemas, em razão também de sistemas tributários e de fiscalização muito complexos. Nos rankings divulgados recentemente pelo U.S. News & World Report, na categoria de país “aberto para negócios”, os americanos aparecem em um chocante 23.º lugar.

Contudo, existe um crescente consenso entre empresários e economistas quanto às inusitadas circunstâncias atuais, aliás, quase únicas, em que pessoas e companhias poupam demais, os salários são deprimidos, inflação inexistente e há o perigo concreto de uma deflação. 

Em um estudo publicado na revista Foreign Affairs, dois executivos de alto escalão da Blackstone, J. Tomilson Hill e Ian Morris, destacam que, atualmente, as evidências são claras na Europa: os países que empreenderam substanciais reformas estruturais, como Grécia e Portugal, não foram recompensados com o crescimento econômico. “As reformas para o mercado não corresponderam com uma forte recuperação econômica”, escreveram.

Sobre o mesmo tema, Lawrence Summers, ex-presidente de Harvard e ex-secretário do Tesouro dos EUA, explica cuidadosamente na Foreign Affairs, a razão pela qual o problema fundamental da economia é a falta de demanda (excesso de poupança e escassez de gastos) e defende como única solução um grande aumento dos gastos em infraestrutura. Antes disso, ele salientara que, como acontece em casa, adiar os gastos imprescindíveis com a manutenção levará o proprietário a se deparar com uma conta muito maior quando as coisas quebrarem de fato. Melhor tomar emprestado a juros historicamente baixos e gastar o dinheiro agora para impulsionar o crescimento, dando início a um ciclo virtuoso da demanda. 

“As futuras gerações poderão usufruir de condições melhores se deverem muito dinheiro em títulos de longo prazo a juros baixos em uma moeda que podem imprimir do que se herdarem uma vasta conta de manutenção que simplesmente foi sendo adiada”, ele escreve. 

Pelo que Donald Trump e Bernie Sanders vêm afirmando reiteradamente a respeito de infraestrutura durante a campanha, parece que eles concordam em grande parte neste ponto. Será que este poderia ser o começo de um programa bipartidário favorável ao crescimento dos Estados Unidos? /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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