Quantos homens são assediadores ou predadores?

Quantos homens são assediadores ou predadores?

Segundo dados do governo americano, 6 entre 10 mulheres que sofreram abuso sexual conheciam o indivíduo que as atacou

Petula Dvorak, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

13 Dezembro 2017 | 05h00

Toda manhã nos preparamos antes de examinar nosso feed de notícias. Que figura pública amada ou respeitada é acusada de assediar ou abusar de mulheres? No Twitter e no Facebook, mulheres indignadas, deprimidas e desoladas imploram, inserindo o nome de um astro de cinema favorito, um político admirado ou um líder espiritual, até mesmo aquele chefe que adoramos. Porque, ao que parece, pode ser qualquer pessoa, certo?

O calendário dos horrores desta semana teve início com o chef Mario Batali, admirado por seus pratos e adorado por sua atitude descontraída e seus sapatos ridículos. Ele pediu desculpas por seu mau comportamento, que incluía apalpar os seios e o traseiro das mulheres. “Apesar de as identidades de muitas das pessoas mencionadas nesses relatos não me terem sido reveladas, o comportamento descrito, na verdade, coincide com meu modo de agir”, escreveu Batali ao Washington Post. Ele se licenciou de seus restaurantes e se retirou do programa, The Chew, da ABC.

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Na semana passada, foi vez do respeitado juiz Alex Kozinki ser acusado por seis funcionárias do tribunal de conduta sexual imprópria, como mostrar a duas delas material pornográfico em sua sala de despachos. Antes deste caso, os acusados foram Matt Lauer, estrela do Today Show, imediatamente demitido, e o apresentador de TV Charlie Rose, que também foi rebaixado e expulso do programa.

Três congressistas renunciaram em meio a acusações de má conduta sexual: o senador Al Franken, democrata de Minnesota, John Conyers, democrata de Michigan, e o republicano Trent Franks, do Arizona, que teria pedido a duas funcionárias da Casa para serem barrigas de aluguel.

Por outro lado, um sujeito tosco que se vangloriou no programa Access Hollywood de tocar as genitálias das mulheres, hoje ocupa o Salão Oval. Nesse ínterim, chamou todos os seus acusadores de mentirosos e exortou os eleitores do Alabama a votar em um candidato ao Senado acusado de abusar de adolescentes quando, aos 30 anos, era promotor público. Quem é o próximo?

Vamos chamar de #NotYouToo, uma parte do movimento. Há uma lista completa de homens que estamos esperando e rezando para que não sejam maníacos, certo? E uma pergunta extremamente perturbadora é sobre qual seria a porcentagem de homens assediadores e predadores nos EUA: 10%, 20% ou mais?

Embora este reconhecimento nacional de casos de assédio e abuso sexual seja chocante para alguns, não é surpresa para a enorme população de mulheres que foram enganadas por um mentor, um cuidador, um parente ou um amigo.

Os dados mostram que muitas mulheres – 6 entre 10 – abusadas sexualmente conheciam o indivíduo que as atacou, de acordo com o Departamento de Estatísticas do Departamento de Justiça. E o número de casos de abuso sexual nos EUA é bastante subestimado. De acordo com o Crime Victimization Survey, do Departamento de Justiça, o número de estupros não reportados este ano mais do que dobrou em relação aos informados.

Quando se trata do assédio sexual no local de trabalho, há o mesmo fenômeno. Como demonstra a torrente de casos no #MeToo, o número é muito maior do que se pensa.

“No local de trabalho, a resposta comum por parte das mulheres que sofrem assédio é evitar o indivíduo que as atormenta, negar ou minimizar a gravidade da situação, tentar ignorar, esquecer ou suportar o assédio”, foi a conclusão, no ano passado, da força-tarefa criada pela Equal Employment Opportunity Commission. O grupo, que analisou quase 7 mil queixas de assédio sexual no ano passado, estimou que três em cada quatro vítimas nunca fez uma denúncia.

Tudo isso significa que todos os homens assediam? Às vezes é essa a impressão que fica. Alguns homens vêm reagindo a essas denúncias evitando interagir com mulheres no ambiente de trabalho. O vice-presidente Mike Pence, por exemplo, não almoça a sós com uma mulher que não seja sua mulher, nem participa de algum evento onde há bebida alcoólica sem ela. E tem sido ridicularizado por isso.

Com essa regra, ele limita o acesso das mulheres às altas instâncias do poder, ao networking ou quaisquer interações que os homens mantêm entre si, ela transforma as mulheres em pouco mais do que objetos sexuais tentadores.

Mas sejamos realistas. Basta olhar em torno – no seu local de trabalho, no lugar de culto que frequenta, no seu bairro, na sua casa. Para cada apalpador de genitálias, exibicionista ou maníaco sexual, existem homens exemplares que não assediam, que não precisam adotar a regra de Mike Pence para respeitar as mulheres à sua volta.

Eles seguem a regra – talvez sem mesmo conhecê-la – de Dwayne Johnson, ator conhecido como “The Rock”. O problema do assédio sexual não é complexo, difícil ou confuso. Simplesmente, trate todas as mulheres que encontrar como trataria Dwayne Johnson.

Você colocaria sua mão no joelho de Dwayne, massagearia seus ombros enquanto trata de um assunto de trabalho, o convidaria para ir ao seu quarto de hotel, acariciaria seu traseiro, trancaria a porta da sua sala ou tiraria sua calça e mostraria a ele seu pênis? Não? Parabéns, isto é #NotYouToo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA

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