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Quatro graus a mais

Para você, um aumento de 4ºC na temperatura não teria maiores consequências. Mas, para o planeta, seria uma catástrofe. As evidências indicam que, se nada fizermos, chegaremos a isso. Segundo Nicholas Stern, um dos mais respeitados estudiosos do assunto, "a menos que sejam implementadas medidas rigorosas, há uma grande probabilidade de que, dentro de um século, o mundo estará em meia 4°C mais quente do que no fim do século 19 (antes do início do processo de industrialização).

Moisés Naím

01 Junho 2014 | 02h03

De acordo com Stern, desde há 10 milhões de anos o planeta não tem temperaturas médias 4°C mais altas das que predominavam no mundo pré-industrial. Como o homo sapiens está há apenas 250 mil anos na Terra, viver em um mundo com 4°C a mais é uma experiência que os humanos não têm.

De fato, nos últimos 8 mil anos, a temperatura do planeta tem sido estável, oscilando apenas 1°C a 1,5°C. Essa estabilidade tornou possível a agricultura e o sedentarismo. Com base numa seleção dos melhores estudos, Stern nos oferece um resumo aterrorizador de como seria um mundo 4°C mais quente. A Europa Meridional se assemelharia ao Saara. Na África, o deserto se estenderia até o sul, com efeitos devastadores. A neve desapareceria do Himalaia, alterando o leito e o volume de água de rios dos quais mais de 2 bilhões de pessoas dependem. O mesmo ocorreria nos Andes e nas Montanhas Rochosas, mudando a disponibilidade de água nas Américas. As monções na Índia, que hoje são de grande ajuda para a atividade agrícola de centenas de milhões de pessoas, mudariam radicalmente, levando a deslocamentos em massa de populações e forçando drásticas mudanças nos sistemas de produção e consumo de cereais, grãos e hortaliças.

Florestas como a amazônica serão afetadas pela desertificação, com o desaparecimento de milhares de espécies. Eventos climáticos extremos como furacões, tempestades e ciclones serão mais frequentes. O nível do mar aumentará: quando há 3 milhões de anos a temperatura média do planeta era 3°C mais quente do que no século 19, o nível do mar era 20 metros mais alto do que é hoje. Um aumento de dois metros acima dos níveis atuais provocaria o deslocamento de 200 milhões de pessoas, o que deve ocorrer antes do fim deste século. É provável que sua reação, ao ler o que afirmamos, esteja inserida numa destas três categorias:

A) Negação e ceticismo. O aquecimento global não vem ocorrendo, é um exagero. As mudanças de temperatura não são provocadas pela atividade humana, mas flutuações normais. Também há consequências positivas, que compensam os efeitos indesejáveis.

B) Ocorrerá daqui a muito tempo e não estarei aqui para sofrer as consequências.

C) Fatalismo e impotência. Não há nada que eu possa fazer. As tendências ou já são incontroláveis ou, para revertê-las, são necessárias medidas que não serão tomadas. Os governos não agem.

A primeira reação ignora o fato de que 97% dos artigos científicos concluem que o planeta vem aquecendo em razão da atividade humana e ignora que há 140 fundações que recebem US$ 900 milhões por ano de setores interessados em fomentar dúvidas sobre a mudança climática.

A segunda não leva em conta que o processo acelerou, que os impactos negativos já vêm ocorrendo e agravaram num período de tempo relativamente curto. Para a maioria dos cientistas, um aumento de 2°C já produziria mudanças catastróficas. Se as tendências não mudarem, isto ocorreria em 2036.

Finalmente, a crença de que já não há nada que possamos fazer é uma garantia de que nada será feito. Embora isto esteja certo, observar passivamente como o planeta avança na direção da catástrofe é uma atitude intolerável. Embora não seja fácil saber como agir no plano individual , existe algo muito importante que é muito fácil de se fazer: não permanecer indiferente diante da ameaça. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É ESCRITOR VENEZUELANO E MEMBRO DO CARNEGIE ENDOWMENT, DE WASHINGTON .

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