Acerco/Estadão
Acerco/Estadão

Queda do muro permitiu entender elos com Brasil 

Depois do fim da União Soviética em 1991, as rigorosas medidas restritivas de acesso a arquivos oficiais caíram ou foram reinterpretadas, dando acesso aos dados sobre período crítico da história do comunismo no Brasil

William Waack*, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2017 | 05h00

A melhor janela que se abriu para entender as relações entre Moscou e os comunistas brasileiros no período imediatamente após a Revolução de Outubro ocorreu em 1991 quando da implosão da União Soviética. Durante pelo menos 2 anos, as rigorosas medidas restritivas de acesso a arquivos oficiais (especialmente do próprio PC soviético, que acabara de ser proibido sob Boris Yeltsin) caíram ou foram reinterpretadas de forma muito mais liberal por funcionários desorientados. Nesse período, eu era correspondente do Estado acreditado tanto em Berlim, capital da recém reunificada Alemanha, como em Moscou.

100 anos da Revolução Russa: um olhar sobre o 'século soviético'

E ali foi Yuri Ribeiro, o filho caçula de Luís Carlos Prestes (secretário do Partido Comunista Brasileiro por 37 anos), quem me convenceu a dar uma espiada em arquivos que trariam alguma luz sobre um período crítico da história do comunismo no Brasil: quando seus militantes decidiram pegar em armas e derrubar o governo de Getúlio Vargas em 1935. Tratava-se no seu conjunto de documentos mais importantes e reveladores dos arquivos do Komintern (como se grafava em alemão, idioma oficial da Internacional Comunista da época), uma organização que, como o nome indica, articulava internacionalmente a atuação de partidos comunistas a ela filiados.

Os resultados mais gerais da pesquisa escandalizaram não só antigos militantes, que durante décadas acreditaram nas mentiras oficiais contadas pelos dirigentes do partido, mas também uma determinada linha de pesquisa histórica calcada muito mais no que era considerado ideologicamente correto e muito pouco em pesquisa de campo (item fundamental para qualquer reportagem séria).

O principal chefão comunista brasileiro, Luís Carlos Prestes, sai dos materiais do arquivo com a imagem destruída - não seria de se esperar que tivesse de Moscou uma noção crítica, mas o que os documentos sobre 1935 demonstram é uma extraordinária incapacidade do condutor da revolta armada de entender o que acontecia no próprio país, além de ser tratado por alguns dos coparticipantes como chefe militar de rara incompetência.

Há debate entre historiadores sobre a margem de manobra que dirigentes comunistas brasileiros tinham em relação às diretrizes estabelecidas pelo PC soviético e, no caso específico de 1935, em relação ao que era elaborado pelo Komintern, por sua vez completamente dominado e controlado pelos “órgãos”, o volumoso aparato de repressão, espionagem e segurança do regime soviético. No caso brasileiro, a julgar pela base documental, era bem pouca. A “Maison”, como se referiam os militantes internacionais a Moscou, controlava da pureza ideológica à obediência, passando também pelos gastos (que o digam as prestações de contas enviadas por Prestes aos chefes do outro lado do mundo não apenas em sentido geográfico).

Talvez ironia final seja a descoberta do “Ouro de Moscou”, a expressão com a qual adversários dos comunistas durante décadas tratavam de designá-los como simples paus mandados a serviço de quem pagava. Não, o ouro não era de Moscou. Era de Prestes, que levou o dinheiro para a União Soviética. E, lá, o entregou a Moscou.

*WILLIAM WAACK É JORNALISTA E AUTOR DE ‘CAMARADAS, NOS ARQUIVOS DE MOSCOU: A HISTÓRIA SECRETA DA REVOLUÇÃO BRASILEIRA DE 1935’

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.