REUTERS/Miraflores Palace
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Queda no preço de matérias-primas abala sucesso de governos da América do Sul

Em países-chave da região, como Venezuela, Equador e Chile, a redução na cotação das commodities tem causado problemas financeiros que põem em risco até mesmo a condição de governabilidade, apesar do avanço nas questões sociais

Luiz Raatz, O Estado de S. Paulo

04 Outubro 2015 | 05h00

A América do Sul experimentou na última década uma redução inédita nos níveis de miséria e pobreza que impulsionou a popularidade de governos da esquerda mais moderada no Chile e Uruguai ao movimento bolivariano de Venezuela, Equador e Bolívia. Nos últimos 12 meses, no entanto, o motor desse sucesso político-econômico começou a engasgar. 

Puxadas pela queda do petróleo e a desaceleração da China, as principais matérias-primas exportadas pela região viram sua cotação se reduzir, diminuindo a receita principalmente em países dependentes de um único produto. Como resultado, a popularidade da maioria dos líderes da região tem caído. 

O fenômeno é mais nítido em economias menores e menos diversificadas. No Equador, que viveu uma década inédita de estabilidade e bonança econômica, a popularidade do presidente Rafael Correa caiu 20 pontos porcentuais neste ano. 

No Chile, Michelle Bachelet, que voltou ao Palácio de La Moneda em 2014, perdeu 30 pontos porcentuais em sua aprovação desde o início do mandato. Em seu caso, além da desvalorização do peso chileno e a queda do preço do cobre, pesa também a insatisfação com recentes escândalos de corrupção que envolvem seus parentes.

A Venezuela, que já enfrentava uma crise econômica provocada pela escassez de dólares desde 2012, viu a receita do país cair à metade com a queda do preço do petróleo, que passou de US$ 130 na década passada para os cerca de US$ 60 atuais. A mudança de cenário derrubou a popularidade do presidente Nicolás Maduro de 55% no momento de sua eleição para 22%. 

Para a pesquisadora de América Latina do Council on Foreign Relations Shannon O’Neil, esses países, que dependem muito de commodities para o crescimento do PIB e da balança comercial, agora estão em uma encruzilhada. “A atual desaceleração econômica revela uma grande vulnerabilidade do crescimento e da proteção das novas classes médias surgidas nesses países nos últimos anos”, disse ela ao Estado. “O declínio das commodities afeta o Brasil e outros países da região. Mas o desafio maior vem de outros mecanismos de crescimento, principalmente o consumo das famílias, hoje com dívidas e juros cada vez mais altos.”

Segundo a ONU, em toda a América Latina, a pobreza caiu de 41,7% para 25,3% da população entre 2000 e 2012. A partir de 2013, no entanto, as economias da região começaram a desacelerar. Em 2014, quando o barril de petróleo do tipo brent saiu de US$ 115 para US$ 45, países como Equador e Venezuela viram a maior parte de sua receita cair pela metade num intervalo de seis meses. Outras matérias-primas acompanharam esse movimento. O preço do cobre - principal produto de Chile e Peru, nos últimos 12 meses, caiu 23,3%. A soja, uma das bases da força agrícola argentina, recuou 20,4%. 

Bolivarianos. Diante da dificuldade com a queda das commodities, líderes que apostaram em sua popularidade como fiadora de seu projeto de país agora buscam alternativas. E, segundo analistas, quem tinha uma melhor situação fiscal antes do início dessa desaceleração econômica, saiu na frente. 

“O impacto direto da queda das commodities é mais verificável nas contas públicas que na vida das pessoas. Países com regras fiscais claras, como Colômbia, Peru e Chile, têm mais habilidade para balancear essas perdas com políticas contracíclicas”, disse ao Estado o economista Andy Wolfe, ex-técnico do FMI e professor da American University. “Argentina, Equador e Venezuela provavelmente apelarão para medidas mais ortodoxas na tentativa de manter a popularidade por meio do gasto público.” 

Quando Maduro foi eleito, em 2013, já havia pouco dinheiro no caixa. Nos últimos dois anos a crise se agravou exponencialmente e agora, a dois meses da eleição legislativa, o chavismo teme uma derrota histórica para a oposição. 

“A queda da receita petroleira criou um clima negativo na Venezuela que afetou ainda mais a popularidade do presidente”, afirmou o sociólogo Luis Vicente León, do instituto Datanálisis. “Ainda não estamos numa situação de crise política ou de ingovernabilidade. Mas é possível que a derrota nas eleições parlamentares provoque divisões internas no chavismo.”

Com uma situação fiscal melhor que a da Venezuela, o Equador apostou no endividamento para manter o gasto público e compensar a queda da receita. Em 2015, o país deve tomar emprestado o equivalente a 3,5% do PIB. Mesmo assim, Correa enfrentou protestos quando tentou aumentar impostos no meio do ano. 

“Correa teve um momento de caída de popularidade em maio mas tem conseguido se recuperar com essa aposta no endividamento público”, disse ao Estado o cientista político Simón Pachano, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso). “O modelo econômico de Correa tem como base o gasto público da renda obtida com o petróleo. Mas quem ainda o apoia o faz pela imagem que têm dos anos anteriores.”

A exceção é a Bolívia. O presidente Evo Morales ainda mantém uma popularidade de 69%, apesar dos prognósticos de desaceleração da economia. 

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