EFE/José Jácome
EFE/José Jácome

Quem passou a viver de bicos ataca Correa

Crise provocada pela queda no preço do petróleo coincidiu com baixa na popularidade de Correa

Luiz Raatz / Enviado Especial, Quito, O Estado de S. Paulo

21 Fevereiro 2017 | 05h00

Francisco Olmos, de 50 anos, viveu por anos na Espanha. Emigrou durante a crise de 1999, quando os bancos equatorianos quebraram e o país dolarizou sua economia. Viveu na Europa 14 anos, até que a crise do euro, aliada ao que considera racismo dos espanhóis, o fizeram voltar ao Equador. 

“Estava muito difícil conseguir emprego na Espanha. Para cada 10 vagas abertas, nove eles davam para espanhóis”, disse. “Cheguei aqui e foi mais difícil ainda. Na minha idade não é fácil encontrar emprego. Então, eu me viro como motorista e, às vezes, como segurança particular.”

De acordo com ele, além da idade, a crise econômica também dificulta a procura por um emprego. “Eu vejo cada vez mais gente vendendo coisas ou procurando bicos porque ninguém consegue trabalho. Aí, a concorrência aumenta”, afirma. Olmos votou em Correa em 2013. Mas, desta vez, optou por Lasso. Como motivo, também citou a crise e a corrupção. “Lasso tem mais competência para sair da crise, me parece.”

Roberto Parraga era funcionário de recursos humanos de uma importadora de máquinas com sede em Quito quando, no ano passado, soube que seria demitido. A crise econômica que afeta o Equador e o aumento de impostos decretado pelo presidente Rafael Correa, em quem votara duas vezes, o fizeram ter dúvidas se valia mesmo a pena votar em Lenín Moreno, candidato do governo nas eleições de domingo. Ele bateu o martelo apenas quando começaram a surgir as denúncias de corrupção na Petroecuador e na Odebrecht.

“Já era hora de mudar. Correa fez coisas boas, mas o país piorou muito no último ano”, disse. “Além disso, as denúncias de corrupção são muitas. E eu não confio sobretudo em Glas (Jorge, o vice de Moreno), que está envolvido em denúncias.”

A crise econômica provocada pela queda no preço do petróleo no mercado internacional, iniciada em julho de 2014, coincidiu com a queda na popularidade de Correa. Historicamente em torno de 60%, desde 2007, sua aprovação permitiu que ele se reelegesse com folga em 2013, com 57% dos votos. 

A partir de 2015, no entanto, quando a economia equatoriana começou a dar sinais de desgaste, sua avaliação começou a cair. Hoje, está em 42% – número bastante próximo dos 39% dos votos obtidos por Lenín Moreno no domingo.

Apesar de o desemprego ter crescido pouco entre meados de 2014 e dezembro – de 4,7% para 5,2% –, é no emprego informal que se nota o verdadeiro impacto da crise. Vagas sem registro ou subempregos perfazem hoje 20% dos postos de trabalho no Equador. No começo da crise, não passavam de 10%. 

“Esse governo praticamente paralisou as atividades privadas da economia”, afirmou ao Estado Walter Spurrier, da consultoria Spurrier. “Com isso, as pessoas deixaram seus empregos formais e muitos aderiram ao mercado informal.”

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