Quem quer ser presidente?

Desafios que o vencedor da eleição americana enfrentará são de complexidade inédita

Thomas L. Friedman, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2015 | 02h03

Após assistir a todos os debates e ver todas aquelas pessoas que se candidataram à presidência dos EUA, não posso deixar de pensar: por que alguém haveria de querer esse emprego agora? Será que vocês se dão conta do que está acontecendo por ai? O cabelo de Obama não ficou grisalho por acaso. O Air Force One é fantástico etc., mas, agora, junto com ele vêm o Afeganistão, o Estado Islâmico (EI) e o Fórum da Liberdade Republicana - sem falar num grande número de pessoas, lugares e coisas que virão abaixo ao mesmo tempo.

Vejamos o que diz o artigo mais assustador deste ano. Na sexta-feira, o Washington Post noticiou que "o Departamento de Justiça acusou um hacker da Malásia de roubar os dados pessoais de membros das Forças Armadas americanas e entregá-los ao grupo terrorista EI, que instiga seus seguidores online a atacá-los". O artigo explicava que, em junho, Ardit Ferizi, líder de um grupo de hackers albaneses étnicos de Kosovo "invadiu um servidor usado por uma empresa de comércio online americana" e "conseguiu dados referentes a cerca de 100 mil pessoas".

Ferizi, prosseguia o texto, "é acusado de entregar os dados a um integrante do EI, Junaid Hussain, cidadão britânico que em agosto postou links no Twitter com nomes, endereços de e-mail, senhas, localização e número de telefone de 1.351 militares americanos e outros funcionários do governo. E advertiu que os 'soldados (do EI) cortarão seus pescoços em suas próprias terras!' Agentes do FBI localizaram Ferizi num computador com um endereço da internet na Malásia, onde foi preso". Ao mesmo tempo, Hussain foi morto por um drone americano na Síria.

É extraordinário. Um hacker albanês na Malásia colaborando com um jihadista do EI pelo Twitter para intimidar online soldados americanos - antes de o jihadista ser morto por um dos drones dos Estados Unidos.

Bem-vindos à guerra do futuro. Superpotências contra homens indignados dotados de superpoderes - e um grupo de cibercriminosos e ciberterroristas. Todos eles são subprodutos de uma profunda virada impulsionada pela tecnologia que recepcionará o próximo presidente e tornará os atuais debates risivelmente obsoletos dentro de quatro anos.

Mudanças. Nasci na era da Guerra Fria. Eram tempos perigosos em que duas superpotências eram dotadas de armas nucleares e uma ameaçava atirar contra outra, enquanto a doutrina da "destruição mútua assegurada" as mantinha sob controle. Mas agora sabemos que os ditadores colocados no poder pelos EUA e pela Rússia no Oriente Médio e na África suprimiram conflitos sectários de dimensões vulcânicas.

As primeiras décadas da era pós-Guerra Fria foram também um período de relativa estabilidade. Os ditadores do Leste Europeu e da América Latina deram lugar a governos democraticamente eleitos e a mercados livres. Boris Yeltsin, da Rússia, jamais desafiou a expansão da Otan - e a internet e as cadeias de suprimentos globais aumentaram a lucratividade e provocaram a queda do custo da mão de obra e dos bens. Os juros eram baixos e, embora os rendimentos dos trabalhadores que não tinham formação universitária declinassem, o fato era mascarado pela elevação dos preços das casas, pelas hipotecas subprime, pelo crédito fácil, a queda dos impostos e o ingresso das mulheres na força de trabalho, portanto, em muitas famílias, a renda continuava subindo.

"Até o ano 2000, mais de 95% da geração seguinte gozavam de uma condição melhor do que a geração anterior", disse Richard Dobbs, diretor do McKinsey Global Institute. Portanto, ainda que os ricos ficassem mais ricos do que os que se encontravam nos degraus mais abaixo da escala de rendimentos, "isso não levou a uma agitação política porque a classe média estava progredindo também" e tinha a certeza de ser mais rica do que a geração anterior.

Mas, na década passada, ingressamos na era "pós-pós-Guerra Fria". A combinação de pressões tecnológicas, econômicas e climáticas provocou uma efetiva explosão nos Estados do Oriente Médio e da África, desencadeando conflitos sectários que nenhum ditador consegue suprimir.

Escalada. Os vilões estão ficando cada vez mais poderosos e "a destruição mútua assegurada" do EI não é um dissuasor, mas um convite ao céu. Os robôs, entre outras coisas, estão ordenhando vacas e o supercomputador Watson, da IBM, pode derrotar você no programa mais difícil da TV americana - Jeopardy! -, por isso, cada emprego decente exige mais capacidade técnica, habilidade social e um aprimoramento constante.

No Ocidente, um número menor de jovens, com bilhões de dívidas em mensalidades escolares, deverá pagar o Medicare e o Seguro Social da geração nascida após a guerra que agora está se aposentando e viverá mais.

"De repente", afirma Dobbs, "o total de pessoas que não acreditam que terão uma vida melhor do que a dos seus pais vai de zero a 25% ou mais". Quando você está progredindo, valoriza o sistema, não se importa com quem é um bilionário, porque sua vida está melhorando. Mas quando para de progredir, acrescentou Dobbs, pode "perder a confiança no sistema - seja a globalização, o livre comércio, a transferência de empresas e empregos para o exterior, a imigração, os republicanos tradicionais ou os democratas tradicionais. Porque, de uma maneira ou de outra, você se dá conta de que não estão trabalhando para você".

É por isso que Donald Trump obtém tanta repercussão na pré-campanha eleitoral dos Estados Unidos, Marien Le Pen na França, o califa do EI no mundo árabe e Vladimir Putin na Rússia. Todos eles prometem trazer de volta as certezas e a prosperidade da era da Guerra Fria ou do pós-Guerra Fria - demitindo as elites tradicionais que nos trouxeram até esse ponto e construindo muros contra a mudança e contra os homens indignados dotados de superpoderes. Todos eles são falsos profetas, mas a tempestade que eles prometem impedir é bem real. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

THOMAS L. FRIEDMAN É COLUNISTA DO THE NEW YORK TIMES
 

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