‘Queremos um governo que nos leve a uma Constituição', diz líder rebelde

Levante é novo, mas a experiência de confrontar o regime é construída há tempos

Andrei Netto, enviado especial a Oeste de Trípoli

03 Março 2011 | 01h00

YAFRAN - Yafran, um vilarejo ao sul de Tripoli, é outro foco de resistência popular contra o regime de Muamar Kadafi na região oeste da Líbia. Apesar do discurso do ditador, que afirma ter o controle da região, ativistas armados tomaram dezenas de cidades e vilarejos, de onde resistem a uma recente ofensiva das Forcas Armadas e de mercenários.

 

Veja também:

especialLinha do Tempo: 40 anos de ditadura na Líbia

blog Arquivo: Kadafi nas páginas do Estado

especialInfográfico:  A revolta que abalou o Oriente Médio

blog Radar Global: Os mil e um nomes de Kadafi

lista Análise:  Revoluções marcam o o retrocesso da Al-Qaeda   

 

Um dos líderes do movimento em Yafran é Issa Sijuk, membro da organização internacional Amaziejhs. Em conversa com jornalistas do Estado e do Guardian, Sijuk falou sobre o início do ativismo contra Kadafi em sua cidade.

 

 

Como o movimento rebelde começou em Yafran?

 

 

Começou em 18 de fevereiro, quando 16 pessoas começaram a protestar. No dia seguinte, havia uma multidão reunida. Alguns jovens foram presos, mas a verdade é que as forcas de segurança foram pegas de surpresa e sentiram medo de enfrentar toda a multidão. Um dos problemas de nosso país foi justamente o fato de que ao longo de anos o regime levou ao armamento da população. Isso sempre foi usado para criar tensões, mas agora também abre espaço para o que esta acontecendo neste momento. E o que esta acontecendo é um levante popular contra mais de 40 anos de opressão. Todo país tem sua cota de paciência, mas a nossa esgotou quando vimos o movimento de países vizinhos. Queríamos um movimento pacifico, e foi assim que tudo começou. Mas então veio mais uma onda de repressão violenta.

 

Benghazi liderou o movimento. O que fez Yafran e as cidades do oeste se juntar à causa?

 

Benghazi foi a faísca, pois eles estavam expressando as ideias de todo o país, não apenas da cidade. O maior sintoma é que começaram a atacar os símbolos do poder, como os comitês revolucionários, os postos de policia e as instalações militares. O levante contra Kadafi é novo, mas nossa experiência em confrontar o regime não é nova. Ela vem sendo construída há muito tempo. No caso de algumas tribos e cidades, há décadas.

 

Não ha divergências essenciais entre as cidades do leste e do oeste?

 

O regime gostaria de criar uma tensão, estimular divergências entre o movimento do leste e o do oeste, mas não há luta pelo poder. Nós apoiamos o conselho de Benghazi, pois essas pessoas são as mais qualificadas para liderar o futuro político do país no momento de transição.

 

Que tipo de democracia vocês ambicionam?

 

O melhor tipo de democracia é aquela que se cria quando as pessoas são privadas de democracia. A Líbia não é tão fechada quanto parece. Estamos esperando uma grande administração nacional, que nos leve a uma Constituição. Mas enquanto Trípoli não tombar, não poderemos tê-la.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.