AFP PHOTO / Thomas COEX
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Questão de Jerusalém aproxima opostos

Medida de Trump reuniu os inimigos xiitas e sunitas no mesmo sofrimento

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

09 Dezembro 2017 | 05h00

Trump virou a mesa e só alguém muito astuto consegue prever os efeitos da sua nova invenção: o reconhecimento de Jerusalém como a capital de Israel. Sob um primeiro olhar, o “incêndio” lançado por Trump no Oriente Médio tem um efeito inesperado: reconcilia os opostos. Por exemplo, no mundo muçulmano, ele consegue uma proeza: reunir no mesmo sofrimento os dois inimigos islâmicos, xiitas e sunitas, que se odeiam até a morte. Por alguns dias, a sunita Arábia Saudita e o xiita Irã experimentaram a mesma indignação.

Se nós nos remetemos à geopolítica mundial, descobrimos um milagre dos mais raros: chineses, russos e europeus criticam o presidente americano: irresponsável, ignorante, provocador, bufão, inculto. E egoísta. Milagre! Em Pequim ou Berlim, finalmente, encontramos um assunto sobre o qual se unem as mais diferentes mentes: Trump é louco e o mundo é seu refém.

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E o estranho inquilino da Casa Branca também favoreceu os reencontros no coração desta Palestina, que ele maltrata violentamente. Sabemos que os palestinos estão divididos: a Faixa de Gaza, dominada pelos “extremistas” do Hamas, e a Cisjordânia, governada pela Autoridade Palestina, liderada por Mahmoud Abbas – um defensor da diplomacia e da paciência.

Milagrosamente, a “ação violenta” de Trump parece por algum tempo trazer um breve relance da rara “unidade palestina”.

Desde quinta-feira, uma medida concreta: a OLP evocou, pela primeira vez, a suspensão de medidas punitivas tomadas desde março pela Autoridade Palestina contra Gaza, incluindo a redução do fornecimento de energia. Estas são algumas das estranhas virtudes do “milagre Trump”.

Mas Abbas sabe que essa boa disposição é frágil e não durará. É preciso moldar o ferro quando ele está quente. Abbas quer agendar rapidamente uma reunião de órgãos da OLP com o Hamas, para definir uma nova estratégia única.

Abbas é mais ativo na medida em que é atormentado pelo próprio fracasso, no que chamamos de ciclo de Oslo, iniciado há 25 anos, que suscitou grandes expectativas e fracassou completamente: nenhum Estado palestino, aceleração feroz da “colonização” na Cisjordânia, os bairros árabes de Jerusalém no abandono. E nada de qualquer negociação com Israel há três anos.

Mesmo assim, Abbas não mudou sua estratégia. Para ele, como para muitos observadores, a solução passa pela criação de “dois Estados” – esses “dois Estados” vitimados pelo “golpe de misericórdia” dado por Trump.

Mas não são apenas Trump e Netanyahu que rejeitam “a solução de dois Estados”. Isso vale igualmente para uma parte dos palestinos. Os jovens palestinos não querem esperar mais. Estão impacientes (depois de meio século, um século ou um milênio, nós os entendemos). Eles denunciam a obstinação de Abbas e acusam a AP de se agarrar em vão à coordenação de segurança com Israel.

Basta percorrer as ruas de Gaza para medir a profundidade do distanciamento entre Abbas e os jovens. “Trump dá aos que não merecem o que não lhe pertence”, diz um árabe de Jerusalém (de 30 anos) a um repórter do Libération. “Abbas é um traidor. Colabora com os americanos há muito tempo. Vamos parar de negociar, vamos libertar a Palestina. Nosso povo é forte.”

Outro jovem de 30 anos conclui: “Eles mudam as regras do jogo. Vamos mudá-las também. O que acabou foi a solução de dois Estados. Daqui por diante, apenas um Estado é necessário em toda a Palestina histórica. Os judeus poderão permanecer, mas teremos os mesmos direitos.” Então, qual a escolha: negociação ou intifada? / TRADUÇÃO DE CLÁUDIA BOZZO 

 

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