Rodger Bosch, Pool via AP
Rodger Bosch, Pool via AP

Ramaphosa é eleito presidente sul-africano

Após romper com Jacob Zuma, empresário apostou em campanha anticorrupção

O Estado de S.Paulo

15 Fevereiro 2018 | 10h54
Atualizado 15 Fevereiro 2018 | 21h26

CIDADE DO CABO - Cyril Ramaphosa, de 65 anos, foi eleito nesta quinta-feira, 15, presidente da África do Sul pelo Parlamento, um dia após a renúncia de Jacob Zuma, que acatou a ordem de seu partido, o Congresso Nacional Africano (CNA), que governa o país desde o fim do apartheid, em 1994. Ramaphosa assumiu a presidência prometendo combater a corrupção, justamente o fator que derrubou seu antecessor.

A ascensão de Ramaphosa ao poder começou há um mês, quando os mais de 4 mil delegados do CNA se reuniram para eleger o novo presidente do partido. O mandato de Zuma à frente da legenda havia acabado e um novo líder tinha de ser escolhido. Prestes a ser indiciado por corrupção por uma negociação de armas ocorrida nos anos 90, Zuma precisava garantir a proteção de seu sucessor no CNA. 

+Jacob Zuma renuncia à presidência da África do Sul

Em vez de indicar Ramaphosa, seu vice-presidente desde 2014, Zuma preferiu apoiar sua ex-mulher Nkosazana Dlamini-Zuma, mãe de 4 de seus mais de 20 filhos, para disputar a sucessão. No entanto, Zuma não contava com três determinações judiciais que impediram cerca de 100 aliados de votar na convenção do partido. No dia 18, quando Ramaphosa foi eleito presidente do CNA, com 52% dos votos, Zuma não sorriu. Ele sabia que seus dias à frente do país estavam contados. 

Ramaphosa, que já detinha reconhecimento internacional por ter conduzido as negociações que levaram ao fim do apartheid e produziram a primeira Constituição democrática da história da África do Sul, se tornou cada vez mais assertivo nas semanas que se seguiram. 

Como líder do CNA, ele supervisionou a indicação de uma nova diretoria na estatal de energia sul-africana, que estava no centro das denúncias de corrupção que envolvem aliados de Zuma. Além disso, cortejou investidores no Fórum Econômico de Davos e jogou um balde de água fria nos planos de seu antecessor de construir novas usinas nucleares na África do Sul.

Principal crítico do ex-presidente desde a convenção do CNA, Ramaphosa passou a prometer um combate à “corrupção generalizada” na África do Sul – e chegou a afirmar que acreditava na mulher que acusou Zuma de estupro, apesar de ele ter sido absolvido pela Justiça em 2006. 

Sonho realizado

Ramaphosa buscava a presidência da África do Sul desde a democratização do país. O ex-presidente Nelson Mandela (1994-1999), porém, frustrou sua primeira tentativa ao preteri-lo como candidato a vice, em favor de Thabo Mbeki, que foi seu companheiro de chapa e acabou ocupando a presidência de 1999 a 2008.

Depois de atuar como congressista e presidente da Assembleia Constituinte, que escreveu a primeira Constituição democrática da África do Sul, Ramaphosa passou a atuar no setor privado, tornando-se um dos principais representantes do “capitalismo negro” que floresceu no país após o fim do apartheid. 

Hoje, ele é um dos homens mais ricos da África do Sul. De acordo com a revista Forbes, sua fortuna é estimada em US$ 675 milhões. Mesmo atuando como empresário, Rapamphosa nunca deixou a política, integrando ao longo dos anos o Comitê Executivo Nacional do CNA – segundo seus críticos, posição que lhe rendeu acesso privilegiado a informações do governo que o ajudaram a construir seu império.

Ramaphosa deve comandar o país até as eleições de 2019, quando os sul-africanos votam de novo para presidente. No entanto, como o CNA jamais obteve menos de 60% dos votos em eleições presidenciais, desde já ele é o favorito para governar a África do Sul até 2024.

+Gilles Lapouge: O fim também da era Mandela

Entre seus principais desafios estão o combate ao analfabetismo (80% das crianças de até 9 anos são consideradas analfabetas funcionais), ao desemprego (de 36%, no geral, e de 68%, entre os jovens) e um crescimento dos casos de aids (eram 4,7 milhões, em 2002, e chegaram a 7 milhões, em 2016). / W.POST e REUTERS

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.