REUTERS/Anees Mahyoub
REUTERS/Anees Mahyoub

Rebeldes xiitas tomam 3ª cidade do Iêmen, que se aproxima da guerra civil

Combatentes do grupo xiita Houthi, de oposição ao presidente do Iêmen, o sunita Abd-Rabu Mansur Hadi, tomaram ontem o controle da cidade de Taiz, a terceira mais importante do país, agravando uma disputa por poder que opõe interesses da Arábia Saudita e do Irã.

ÁDEN, IÊMEN, O Estado de S.Paulo

23 Março 2015 | 02h06

Moradores de Taiz, localizada entre a capital Sanaa e a segunda maior cidade do Iêmen, Áden, disseram que milícias houthis tomaram o aeroporto da cidade sem grande resistência das autoridades locais.

De acordo com testemunhas, dezenas de tanques e veículos militares partiram de áreas controladas pelos houthis rumo a Taiz. Na cidade, ativistas disseram que atiradores houthis dispararam para o ar para dispersar protestos de moradores contra a presença do grupo.

O conflito vem se espalhando pelo Iêmen desde o ano passado, quando os houthis tomaram o controle da capital Sanaa e obrigaram o presidente Hadi a fugir - ele agora está isolado em Áden.

O avanço dos houthis, grupo apoiado pelo regime xiita iraniano, tem irritado os governos sunitas de países do Golfo, liderados pela Arábia Saudita. Ontem, o Irã pediu diálogo, mas sugeriu que Hadi deveria deixar o poder para evitar mais derramamento de sangue.

Líderes de monarquias do Golfo Pérsico e oficiais de segurança, no entanto, dizem que Hadi é o legítimo governante do Iêmen e eles estão prontos para realizar "todos os esforços" para defender a integridade do país.

"O Iêmen está descendo por um túnel escuro que pode ter sérias consequências para a segurança e a estabilidade da região", disseram autoridades locais, incluindo o ministro saudita do Interior, o príncipe Mohamed bin Nayef.

A crise iemenita se agravou na sexta-feira, quando quatro homens-bomba, em dois ataques diferentes, detonaram seus explosivos em mesquitas xiitas em Sanaa, mataram pelo menos 137 pessoas. Foi o maior atentado da história recente do Iêmen. O Estado Islâmico (EI), de forte caráter sunita, reivindicou pela internet a autoria do atentado, mas os EUA não confirmaram o envolvimento do grupo no ataque. O EI, que considera os xiitas hereges, prometeu em um comunicado divulgado na internet não descansar enquanto não "extirpar" os houthis do Iêmen.

Divergência. O ataque de sexta-feira também ressaltou a disputa por influência entre Estado Islâmico e Al-Qaeda dentro da comunidade sunita, descontente com o avanço xiita no Iêmen. O EI disse que o atentado em Sanaa era "apenas a ponta do iceberg". Já a Al-Qaeda na Península Arábica (AQPA) reafirmou que não ataca "mesquitas e mercados" para evitar a morte de "inocentes".

Após os ataques de sexta-feira, os EUA retiraram cem soldados do país por questões de segurança. As tropas americanas eram responsáveis pelas operações contra o braço da Al-Qaeda que atua na região. No mês passado, a Casa Branca já havia fechado sua embaixada em Sanaa após a capital ter sido conquistada pelos houthis.

Diante da escalada do conflito, o Conselho de Segurança da ONU se reuniu ontem, em Nova York, em sessão extraordinária, para debater sobre a crise iemenita. Em nota aprovada por seus 15 membros, o organismo apoiou o presidente Hadi e condenou o avanço dos houthis.

Ilusão. Jamal Benomar, enviado especial das Nações Unidas ao Iêmen, disse ontem que seria uma "ilusão" achar que as milícias houthis são capazes de dominar o país inteiro ou que o presidente iemenita tenha forças suficientes para expulsar os rebeldes xiitas do Iêmen.

"Qualquer um dos lados que quiser dominar o país estará criando as condições para um conflito prolongado no estilo de Iraque, Síria e Líbia", afirmou Benomar. / AFP, REUTERS, AP E NYT

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