Receita para a paz

A injustiça e o desespero alimentam o extremismo e impedem uma solução para o conflito no Oriente Médio

Saad Hariri, O Estado de S.Paulo

28 Maio 2010 | 00h00

LOS ANGELES TIMES

No outono de 1991, como estudante da Universidade de Georgetown, acompanhei a cobertura da Conferência de Paz de Madri, onde os EUA conseguiram reunir árabes e israelenses na mesa de negociação para pôr fim a 25 anos de guerra. Quando me preparava para minha primeira visita oficial a Washington como premiê do Líbano, não conseguia deixar de pensar no preço que o mundo tem pagado desde o fracasso da conferência de Madri, que não levou paz ao Oriente Médio nem justiça aos palestinos. Voltando a 1991, a Al-Qaeda e suas ramificações não existiam. O fanatismo e o terrorismo alimentaram-se do ódio, da frustração e da tragédia que substituíram a paz fracassada. E os extremistas conquistaram uma audiência cada vez maior entre árabes e muçulmanos, propondo a pergunta: "O que os moderados e os defensores de um acordo conseguiram até hoje?" A triste resposta é: nada. Mas que ninguém se engane. Não é que os moderados não tenham tentado.

Em 2002, representantes dos 300 milhões de árabes do mundo assinaram uma iniciativa de paz numa reunião de cúpula em Beirute. Por essa iniciativa, a paz era oferecida a Israel em troca de um Estado palestino, da retirada dos israelenses para as fronteiras anteriores a 1967 e a devolução de territórios a sírios e libaneses.

Israel se fez de surdo. O resultado foi mais guerra, violência e morte, fomentando mais ódio, frustração e desespero. Hoje, quase posso ouvir os cérebros criminosos que orquestraram os ataques terroristas em Nova York, Londres e Madri dizendo: "Se você gostou dos últimos 20 anos, vai adorar os próximos 20."

Relevância. A paz no Oriente Médio é um problema global. E problemas globais exigem soluções globais e uma liderança global. Hoje, a responsabilidade por essa liderança é dos EUA. O presidente Barack Obama sabe muito bem que o extremismo se alimenta da injustiça. Aplaudimos a determinação de Obama em restaurar a credibilidade do processo de paz na região.

Não devemos permitir que esses esforços fracassem. O que significa que logo chegará o momento em que será necessário sair da mediação e partir para arbitragem. Dois fóruns possíveis para cumprir esse papel de árbitro são o Conselho de Segurança da ONU e o quarteto de negociadores do processo de paz para o Oriente Médio - EUA, Rússia, União Europeia e ONU.

Os parâmetros de um acordo de paz sustentável entre palestinos e israelenses, como também entre Israel e os mundos muçulmano e árabe, estão bem estabelecidos. O governo de Israel fez vista grossa para eles, acreditando erroneamente que a superioridade militar pode dar segurança. Não. Ela só dá nascimento a novas formas de extremismo militante.

Como premiê do Líbano, é meu dever proteger meu país. A população libanesa representa somente 1% do mundo árabe, mas nossa excepcional diversidade e tolerância nos dá um significado especial. Tenho a firme convicção de que a verdadeira segurança só pode existir se as principais fontes de tensão e conflito na região forem removidas. Essa é a mensagem que levei comigo para Washington. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É PRIMEIRO-MINISTRO DO LÍBANO E REUNIU-SE COM BARACK OBAMA NA SEGUNDA-FEIRA

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