Recusa de pilotos de atacar rebeldes marca derrota de forças pró-Kadafi

Falta do apoio aéreo às tropas do ditador líbio é decisiva em batalhas-chave na região leste da Líbia

Lourival Sant’Anna, enviado especial

03 Março 2011 | 01h00

Rebeldes líbios montam guarda perto de Brega em tanque que antes era do Exército.

 

BREGA - Sem o apoio da Força Aérea líbia, cujos pilotos não acataram a ordem de bombardear alvos rebeldes, tropas leais ao presidente Muamar Kadafi fracassaram na quarta-feira, 2, na tentativa de retomar instalações petrolíferas do vilarejo de Brega, 230 km a oeste de Benghazi, a principal cidade controlada pelos rebeldes.

 

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Pelo menos 14 pessoas morreram e 29 ficaram feridas no combate que se seguiu à ocupação da refinaria e da pista de pouso por integrantes das forças especiais e mercenários, repelidos por combatentes e soldados rebeldes. O saldo não inclui mortos e feridos levados pelas forças do governo ao baterem em retirada.

 

A recusa dos pilotos da Força Aérea líbia de atacar não só os civis, mas até mesmo alvos militares controlados pelos rebeldes, teve papel decisivo na derrota de ontem das forças leais a Kadafi.

 

 

A ofensiva contra Brega foi precedida de pelo menos duas missões destinadas a destruir a Base de Hania, em Ajdabiya, a principal da região, onde estão armazenadas centenas de granadas propelidas por foguetes (RPGs, na sigla em inglês), bombas e munição para peças de artilharia.

 

 

O Estado constatou que a base permanece intacta. Moradores e combatentes relataram que, tanto na segunda-feira quanto ontem, os aviões despejaram suas bombas em áreas desertas perto da base. O piloto de ontem pousou seu avião no deserto, aproximadamente a 40 quilômetros de Ajdabiya, e combatentes oposicionistas saíram em caminhonetes para resgatá-lo.

 

O repórter testemunhou os combatentes provenientes de Brega chegando à base, enchendo cinco carros de RPGs e retornando ao povoado situado a 70 quilômetros, onde desalojaram os soldados e mercenários leais a Kadafi.

 

Batalha

 

De acordo com combatentes e moradores de Brega ouvidos pela reportagem, os integrantes das forças especiais e mercenários negros africanos chegaram às 6h30 locais, em cerca de 130 caminhonetes 4 x 4, e ocuparam a pista de pouso e a refinaria, matando dois de seus seguranças na entrada.

 

Brega tem apenas 2 mil moradores, mas é estratégica, porque fornece gasolina e gás a Benghazi, a segunda maior cidade do país, com 1 milhão de habitantes. Daqui parte também o gasoduto submarino para a Itália. Brega representava ainda um avanço das forças leais ao governo na direção do leste. A ofensiva foi apoiada por um avião de guerra, aparentemente um Sukhoi russo, e por peças de artilharia montadas sobre as caminhonetes.

 

O reforço dos combatentes anti-Kadafi começou a chegar a Brega por volta de meio-dia, vindo de Ajdabiya, 70 km a leste, e de Benghazi. A maioria era de civis armados com fuzis Kalashnikov. Havia também soldados do Exército rebelde. Pelo menos dez caminhonetes com peças de artilharia e um caminhão com quatro baterias antiaéreas passaram na estrada de Ajdabiya para Brega, a caminho do contra-ataque. Um tanque foi estacionado de cada lado na entrada de Ajdabiya, ornada por um arco do triunfo de metal verde, remanescente da arquitetura triunfalista de Kadafi.

 

Com a chegada do reforço, parte dos soldados e mercenários pró-Kadafi saiu da refinaria, invadiu a Universidade Al-Nejm al-Sata e fez reféns cerca de 40 pessoas - na maioria, mulheres e filhos dos professores, que estavam no alojamento -, relataram várias testemunhas. Os civis foram colocados como escudos humanos na frente da universidade, enquanto soldados e mercenários disparavam contra os combatentes rebeldes, que temiam responder ao fogo e atingir os reféns.

 

Reforços

 

Insurgentes vieram buscar granadas propelidas por foguetes (RPGs), disparadas dos ombros, na Base de Hania, em Ajdabiya, voltaram a Brega e passaram a atacar a universidade e a refinaria de vários flancos, juntamente com os reforços do Exército rebelde. Os soldados das forças especiais leais a Kadafi e mercenários bateram em retirada por volta das 17h30 locais (12h30 em Brasília), levando feridos, possivelmente mortos e entre sete e oito reféns, segundo relatos feitos ao Estado. Eles fugiram nas suas caminhonetes 4x4 pelas areias do deserto, na direção do sul. Parte dos combatentes saiu ao seu encalço. O repórter viu o avião despejando bombas entre os soldados e mercenários e os rebeldes, que por isso recuaram.

 

Os combatentes observaram que o piloto não tinha intenção de matá-los, mas apenas garantir a fuga dos governistas, caso contrário o saldo de mortos e feridos teria sido muito maior. Uma das bombas fez uma grande cratera na beira da estrada. Vários combatentes anti-Kadafi entraram nela brandindo seus fuzis e gritando: "Allah-u-Akbar" ("Deus é grande").

 

Enquanto isso, muitos deles viviam aflições pessoais. Hussein Abdullah, de 20 anos, contou que seu pai estava entre os reféns transformados em escudos humanos na Universidade Al-Nejm al-Sata. Trabalhador de uma mina de alumínio, ele tinha um ferimento no pescoço. Abdullah voltou em disparada para Brega, a fim de salvar seu pai. O Estado não o encontrou depois do combate.

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