Ivan Couronne/AFP
Ivan Couronne/AFP

Reduto eleitoral de 3 mil habitantes celebra um ano de Trump no poder 

Com o desemprego em queda, montadora local de caminhões em expansão e otimismo generalizado, pequena região industrial no interior dos Estados Unidos é espécie de microcosmo da promessa que Trump representa

O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2017 | 16h56

WILLIAMSTOWN, EUA - Da pequena cidade de Williamstown, de cerca de 3 mil habitantes e a 500 quilômetros de Washington, o tumulto provocado pela vitória de Donald Trump na eleição presidencial de 2016 parece quase artificial. 

+As teorias da imprensa americana para a vitória de Trump

Com o desemprego em queda, a montadora local de caminhões em expansão e um otimismo generalizado, a pequena região industrial no interior dos Estados Unidos é uma espécie de microcosmo da promessa que Trump representa para eles e saúda sua liderança.

Nessa pacata cidade da Virgínia Ocidental, 70% dos eleitores celebraram a vitória de Trump. Um ano mais tarde, estão orgulhosos de sua adesão à "revolução trumpista" e elogiam o magnata por ter cumprido sua promessa de "reverter a decadência".

Em uma curva do Rio Ohio, pode-se ver navios repletos de carga. As fábricas que margeiam a Rodovia 7 estão cobertas de fumaça e vapor. Nas vias, vê-se caminhões que transportam os dutos e tanques de água para os poços de petróleo da região.

O orgulho da cidade é a fábrica de Hino, uma subsidiária da Toyota que emprega 300 pessoas e, em setembro, anunciou a contratação de outros 250 trabalhadores. A empresa teve de ampliar suas instalações e se prepara para se transferir para uma outra sede, ainda maior, a cerca de 35 quilômetros ao sul.

Os caminhoneiros da região se beneficiam do momento. Uma agência de empregos do outro lado do rio, na localidade de Marietta, tem uma lista de pedidos de 898 empregos para caminhoneiros em um raio de 75 quilômetros.

"Estamos muito melhor do que antes de (Trump) se tornar presidente", disse à France-Presse a prefeita de Williamstown, Jean Ford.

Em seu modesto gabinete, o aparelho de televisão está sintonizado no canal ultraconservador Fox News. Jean Ford lembra de sua incontrolável alegria na noite da eleição, em 8 de novembro passado.

Ela não consegue apontar uma política específica que tenha ajudado a região, mas insiste em que o importante é que a confiança está de volta.

Os indicadores nacionais de confiança entre empresários e consumidores confirmam essa impressão. Mas a economia já estava se recuperando com Barack Obama, argumentou Jessie King. Esse especialista em tubulações industriais, de 33 anos, é o novo responsável pelo sindicato local dos trabalhadores da construção.

King viveu toda sua vida na região e observou com atenção a tímida recuperação depois de anos de desaparecimento dos postos de trabalho e do êxodo de muitas famílias. "Talvez esteja colhendo os benefícios disso", comentou, referindo-se a Trump.

Os seguidores do presidente não são tão inocentes e têm consciência do estancamento das reformas promovidas por Trump, apesar de seus esforços para "drenar o pântano" – maneira como o magnata nova-iorquino se refere a Washington.

Para isso, não hesitam em apontar aqueles que veem como os principais culpados pela paralisia: o Congresso, o "establishment" político em Washington, os democratas, a imprensa e os juízes liberais.

Jean, que foi prefeita por 20 anos, diz que entende porque as propostas de Trump são bloqueadas pelo Congresso.

Uma vez, lembrou ela, a Câmara Municipal lhe negou um pedido para aumentar os impostos para a coleta de esgoto, mas não pôs entraves para que ela construísse uma piscina municipal e parques. Por isso, está convencida de que é necessário ter paciência com Trump. "Para este mesmo mês no próximo ano, veremos a diferença", garantiu.

A economia local depende das manufaturas e da produção de gás natural a poucos quilômetros de distância, uma atividade que mantém o caminhoneiro Tim Runnion ocupado. Durante uma pausa para comer em Ellenboro, este caminhoneiro de 29 anos não esconde sua admiração por Trump. "Gosto que ele não tem medo dos outros países", comentou.

Os seguidores de Trump destacam alguns êxitos: reordenamento da imigração, forte retórica militar e desregulação ambiental. Este último detalhe é essencial em uma região, onde o carvão é quase sagrado.

E o que dizer de seu fracasso em reformar o sistema de saúde, ou de seu hábito de tuitar sem parar? Isso não é um problema.

Os conservadores da zona "o veem como uma pessoa com defeitos, veem-no como alguém que tem raivas... Francamente, veem-no como uma pessoa normal, assim como todos nós somos", explicou Rob Cornelius, que lidera o Partido Republicano no condado.

Relembre: Triunfo de Trump causa protestos em todo o mundo

Cornelius disse que os eleitores estão dispostos a lhe dar uma chance. "Acham que o mundo inteiro está contra ele", afirmou. 

Para os democratas da região, nada faz sentido nesse discurso. Eles apontam, por exemplo, que o número de pessoas sem cobertura médica caiu pela metade com o chamado "Obamacare" e o drama generalizado das drogas que dizimou a região ainda espera uma medida de emergência do novo governo.

Os republicanos se mantêm fiéis, porém. Para eles, Trump é um "outsider", e isso cria uma conexão emocional com os eleitores. O caminhoneiro Runnion traduz isso em termos simples: em 2020, sem dúvida, votará em Trump. / AFP 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.