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Reformas ampliaram desigualdade na ilha, afirma opositor

Para Manuel Cuesta Morúa - convidado para encontro com Obama - situação ficará pior sem mudanças profundas

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Cláudia Trevisan, Enviada Especial / Havana,
O Estado de S. Paulo

20 Março 2016 | 21h54

HAVANA - As reformas econômicas limitas adotadas pelo governo cubano nos últimos dez anos aprofundaram a desigualdade social no país, que vive um processo tardio de “latino-americanização”, diz Manuel Cuesta Morúa, um dos principais representantes da oposição ao governo de Raúl Castro. Na terça-feira, ele estará entre os integrantes da sociedade civil que se reunirão com o presidente americano, Barack Obama em Havana.

Mais moderado do que os dissidentes cubanos, Morúa apoia o processo de reaproximação entre seu país e os EUA e acredita que ele terá mais sucesso em promover a modernização econômica da ilha do que grandes projetos promovidos por outros países com empresas estatais cubanas - entre os quais mencionou o Porto de Mariel, construído pela brasileira Odebrecht com financiamento do BNDES. 

“Mariel transformou-se em um fetiche”, afirmou em entrevista ao Estado em Havana. “É bom ter uma zona especial como a de Mariel, mas a economia de nenhum país se desenvolve apenas com isso.”

Enquanto alguns dissidentes se opõem ao restabelecimento das relações dos EUA com Cuba, Morúa apoia a mudança e é favorável ao fim do embargo econômico imposto em 1962. Para ele, a posição anterior de Washington era inviável por se concentrar apenas em questões políticas e de direitos humanos e excluir o governo cubano do diálogo. 

“Obama mudou isso para uma fórmula mais global, que coloca todos os interlocutores na mesa, engloba temas econômicos e coloca o cidadão no centro da agenda”, observou. Muitas das medidas anunciadas pelos EUA nos últimos 15 meses tiveram por objetivo a ampliação das oportunidades econômicas dos moradores da ilha. Entre elas, estão o fim do limite de remessas por parentes que vivem nos EUA e a facilitação de viagens de americanos a Cuba.

Mas Morúa sustenta que a desigualdade na ilha se agravará sem reformas profundas. Cuba está divida em dois mundos, cada vez mais distantes entre si. No mais próspero estão os que se beneficiam do turismo ou de remessas de parentes no exterior, no qual a moeda é o peso conversível (CUC, cotado a cerca de US$ 1). No outro, vivem os trabalhadores do Estado - a grande maioria da população -, que ganham no desvalorizado peso cubano (CUP) e possuem salário médio de US$ 20.

Uma das mais importantes mudanças, na opinião de Morúa, é a liberalização do mercado de trabalho, com a possibilidade de empresas contratarem e pagarem salários diretamente aos cubanos. Atualmente, as relações de emprego entre investidores estrangeiros e seus empregados são feitas por intermédio do Estado, que retém a maior parte dos salários. 

“Essa é uma reforma política”, ressaltou. “O setor que dá sustento ao consenso em torno do governo são os trabalhadores ligados ao Estado.” Isso ficou claro no protesto contra as Damas de Branco promovidos por militantes fiéis aos Castros, a maioria funcionários do governo.

Depois de militar na Juventude Comunista, Morúa passou para a oposição em 1991. Social-democrata, ele dirige o movimento Arco Progressista, que defende a modernização econômica e a gradual democratização de Cuba. 

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