Refugiados de Calais recomeçam a vida na França

Muitos dos imigrantes saíram de seus países, atravessaram o Mediterrâneo para tentar a vida no Reino Unido, mas só foram aceitos do outro lado do Canal da Mancha

Andrei Netto, ENVIADO ESPECIAL / CALAIS, FRANÇA, O Estado de S.Paulo

19 Novembro 2017 | 05h00

CALAIS, FRANÇA - Biniyain Knyahun sonhava com uma vida melhor no Reino Unido, depois de deixar a Etiópia em razão da perseguição que sua etnia, minoritária, sofre no interior do país. Em 2016, deixou sua terra natal a pé, migrou ao vizinho Sudão, e de lá para a Líbia, onde enfrentou a prisão e os maus-tratos à espera de uma vaga em um bote para cruzar o Mediterrâneo.

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Depois de sobreviver ao Mediterrâneo e atravessar a Itália, o jovem de 24 anos aguarda agora a confirmação do status de refugiado, vive com um auxílio do governo e, enfim, encontrou seu porto seguro: está casado e vive em segurança – mas na França. 

Knyahun faz parte de um grupo de imigrantes que vem reconstruindo suas vidas na Europa Continental depois de abandonarem o sonho de cruzar o Canal da Mancha e se instalarem no Reino Unido. Eles foram em algum momento moradores da “selva” de Calais, o campo de refugiados improvisado e não reconhecido pelas autoridades, no norte do país. Em seu auge, a favela de imigrantes que era dividida em comunidades, tinha igreja, mesquita, restaurantes e até bares, mas não tinha esgoto ou água, chegou a abrigar mais de 10 mil pessoas de países como Afeganistão, Paquistão, Síria, Turquia e, como Knyahun, da África subsaariana. 

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No final de outubro de 2016, o governo da França, então sob a presidência do socialista François Hollande, ordenou o desmonte da selva, alegando questões humanitárias. Em uma operação que se estendeu por dois dias, mais de 7 mil pessoas, dentre os quais 2 mil menores de idade desacompanhados foram transferidos para centros de acolhimento e orientação espalhados pelo território francês. 

À época, ONGs de direitos humanos chegaram a antever um desastre, com a reconstrução do campo ou o desaparecimento dos imigrantes do radar. Mas o resultado até aqui foi outro, e longe da catástrofe: 42% dos ex-moradores de Calais já tiveram reconhecido o status de asilados. Outros 46% ainda esperam a resposta, e apenas 7% tiveram os pedidos recusados, mas ainda aguardam recursos.

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Entre os já contemplados pelo status, a vida já começa a se organizar. Juntamente com o reconhecimento da situação de refugiados, eles passam a receber o auxílio financeiro de um programa de solidariedade e renda mínima, cujo valor vai de € 545 (R$ 2,09 mil) para um indivíduo solteiro e sem filhos, a € 982 (R$ 3,78 mil) para um casal com dois filhos. É menos de um salário mínimo na França – de € 1,48 mil (R$ 5,6 mil) –, mas ainda assim uma garantia de renda para quem até pouco tempo atrás não tinha nada.

Além disso, os imigrantes têm apoio psicológico e educacional para reconstruir suas vidas. Esse é o caso de Biniyain Knyahun. “A minha etnia é uma minoria na Etiópia, e sofre com as terras roubadas. Fizemos manifestações contra isso, mas passaram a nos perseguir nos chamando de terroristas”, conta o jovem. Em Calais, fez o pedido de asilo, porque achava que a França “era o país dos direitos humanos”. Desde 8 de agosto de 2017, espera a resposta definitiva das autoridades sobre seu pedido de asilo, mas ele e os diretores de seu abrigo estão otimistas. “Encontrei uma namorada eritreia e casamos na igreja ao lado do abrigo”, explicou ao Estado, ao lado da mulher, e orgulhoso com a festa a que teve direito, organizada pela comunidade. 

Knyahun vive em um antigo monastério no povoado rural de Troisvaux, de 284 habitantes, situado em Hauts-de-France, a mesma de Calais. Pelos corredores do prédio, ecoam músicas em árabe, ouvidas pelos imigrantes. Segundo Claude Picarda, coordenador do centro de acolhimento, parte do sucesso do desmantelamento do campo foi a estratégia do governo francês de dividir os moradores da selva em mais de 300 pontos do país, em médias e pequenas cidades e povoados, de forma a ampliar a integração de cada um com as comunidades locais. “Os centros de acolhimento permitiram a muitas pessoas buscar soluções para suas vidas”, avalia.

Em Hauts-de-France, um total de 874 lugares foram abertos – 607 para adultos e 154 para menores. Um deles é ocupado por Fardin Alijani, afegão de 28 anos. Depois de deixar o Afeganistão, passou a pé por Irã, Turquia, Grécia, Macedônia, Sérvia, Croácia, Hungria, Áustria e Alemanha antes de chegar à França. 

“Eu vivi quatro meses na Alemanha, mas preferi vir para a França porque lá fiquei quatro meses preso porque não tinha documentos. Mas milhares de pessoas não tinham”, argumenta. Depois de conhecer Calais, Alijani tem uma posição firme: não voltar para a cidade, onde nunca quis ficar. “Na França está muito bom, mas não em Calais.”

Nesses abrigos que imigrantes como Alijani vivem, a permanência é voluntária. A taxa de permanência, no entanto, é de 85%. F.H., eritreu de 17 anos, é um caso de menor isolado que encontrou um lar, ainda que sem família. Depois de atravessar o Mediterrâneo, vindo do Sudão e da Líbia, continua a sonhar com a Inglaterra, mas não se vê em Calais. 

Sua estratégia agora não é atravessar de forma clandestina, arriscando a vida para esconder-se em caminhões ou barcos, mas contar com o auxílio das autoridades para comprovar que tem o direito de ser reconhecido como refugiado e, assim, poder ser aceito pelo Reino Unido. 

“Eu continuo querendo ir para Londres, porque meu irmão mora lá. Mas a vida na ‘selva’ é muito difícil. É muito frio, não há onde dormir ou comer”, testemunha. 

Entre organizações não governamentais, antes receosas da iniciativa do desmonte do campo, o balanço é positivo. “Há pessoas que se enraizaram em regiões do interior, que falam francês, trabalham ou têm uma promessa de emprego”, contou ao jornal Libération Pierre Henry, diretor-geral da ONG França Terra de Asilo. “Não é um mar de rosas, mas em muitas cidades e vilarejos há uma mobilização para integrá-los.”

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